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Há horas assim

Livro em construção

Livro em construção

Há horas assim

31
Jan15

Feijão muito verdinho

correspondente

Era Inverno, estávamos em fins de Janeiro e, o dia estava de acordo com a estação do ano, chovia, fazia vento e estava frio. Eu mais um compincha, de manhã, muito cedo, tínhamos apanhado a camioneta, não já do Eduardo Jorge, mas ainda, a da Rodoviária Nacional, a camioneta que nos tinham dito que ficava perto do nosso destino. Não foi bem assim. Ficou longe. De trouxa às costas, que é como quem diz, de saco às costas, lá fomos nós, por aquela estrada fora, por aquela estrada “interminável”, aqui e ali, já com outros grupos, também de saco às costas, a caminharem pela berma dela, todos a confluírem, era mais que certo, para o mesmo destino. O quartel da Carregueira. Ia para a tropa.
Chegámos. Entrámos. E foi um dia longo, um dia que demorou, demorou e demorou a chegar ao fim.
Teve diversas “actividades”, actividades a que não estávamos habituados, pelo menos eu, um jovem escriturário, que pelos vistos, estava muito mal habituado, mal preparado para o que estava à minha espera, desde a “formatura” na parada, ainda vestidos à civil, de guarda-chuva fechado, portanto, ali à chuva e ao vento, a aguardar a chamada ou lá o que era, para irmos almoçar, até aquela “vacinação” em série, de seringa em punho com uma agulha enorme, espetada nas costas, quase a trespassarmos, ou isso já foi mais tarde, já foi noutro dia? Não sei não me lembro, mas da agulha lembro-me bem!
E no meio dessas “animações” iniciais, que nos estavam reservadas para esse dia, tivemos a inspecção. Durante todo aquele dia, ora num edifício, ora noutro, lá estávamos nós, em filinha indiana, a aguardar, para isto e para aquilo e, numa dessas filas, ficámos a saber, que ali, o que nos aguardava era uma inspecção. Uma inspecção que consistia em “desfilar”, numa sala, onde estavam sentados lado-a-lado, a uma mesa comprida, uns senhores (creio que eram médicos), perante os quais, desfilávamos “como Deus nos trouxe ao mundo”, também numa filinha ordeira. Que vexame!
A coisa teria corrido bem, mas para variar, parece que fiz asneira da grossa. Estava já a meio da “passagem de modelos”, quando, lá fora, se ouve um baque, seguido de uns risinhos, logo abafados por umas grandes “asneiradas” ditas por alguém. Esse alguém, um Furriel, entrou na sala e, vermelho de raiva, perguntou:
- De quem aquele saco que está ali no meio do caminho?
Era o meu e, ele tinha acabado de tropeçar nele, dera um grande trambolhão!
Escusado será dizer, que apesar desse Furriel, depois, não me ter “calhado na rifa”, não era o do meu pelotão, apesar disso, sempre que nos cruzávamos, claro, quem saía na rifa era eu!

29
Jan15

Favas contadas

correspondente

Antes de me estender por aí fora, pelas linhas de mais esta historieta, deixo aqui a pergunta que me ocorreu agora mesmo e, para a qual não tenho uma resposta, pelo menos imediata, mas cá fica a dúvida “existencial”:
- Porque é que será que em noventa e nove por cento do que escrevo, passe a imprecisão da percentagem, propositadamente exagerada, entra sempre comida?
E esta não foge à regra!
Certo dia, as duas colegas, do trabalho, que normalmente traziam comida de casa, perguntam-nos, a mim e ao meu colega “habitué” na companhia para o almoço, onde é que estávamos a pensar ir almoçar. A pergunta não era despropositada. O nosso “leque” de restaurantes a visitar durante a semana era vasto.
- Por acaso hoje, não vamos muito longe, vamos mesmo ali em frente, hoje têm favas, porquê? Querem vir também?
Sim, ere isso mesmo, nem uma nem outra tinham trazido almoço.
Mas diz uma para a outra:
- Favas? Bom, eu não gosto muito de favas e, como tínhamos pensado em dividir a dose …
- Venha lá, come menos favas, não vai desistir agora, pois não?
Respondeu a outra colega. Preocupada com a poupança? Preocupada em ter que aturar os dois colegas sozinha? Ou preocupada em manter a linha?
Não sabemos. Apenas sabemos que foi um “tiro” ao lado. Não medio as consequências.
O almoço decorreu animado, nada como a companhia das senhoras para isso, para “dar mais vida” ao cinzento dia-a-dia do mundo masculino sem o sexo fraco a “girar á nossa volta”. Que tirada tão machista. O que era suposto ser um elogio mais parece um tique de egocentrismo masculino.
E já perto do final, dessa refeição bem acompanhada, já quando estou quase a pedir a sobremesa, diz o meu colega (pelos vistos mais observador) para uma das colegas:
- Então X, está “à pesca” na travessa aqui do J? Mas olhe que esses ossinhos que aí estão, não são sobras, já foram “roídos” pelo nosso colega e devolvidos do seu prato aí para dentro de novo!
Muito atrapalhada. Apanhada em flagrante:
- Sim? Vieram do prato do J? Não reparei! Mas ainda têm tanta carne agarrada! Pensei que eram sobras!
Estão a ver no que dá dividir uma dose de favas com alguém que não gosta de favas? Uma come a carne e a outra fica com as favas! Ou com os ossinhos do colega!
Que fome!
Naquele momento, não sei não, não sei se eu estava ali bem, mesmo al lado daquela colega faminta! O que me deve ter valido foram também as minhas poucas “carnes” dessa altura!

27
Jan15

Um aperto e tanto

correspondente

Estava um belo dia de Verão. Tinha ido até ao “campo”. Um citadino como eu, mais ou menos, entalado entre prédios, tinha ido até à zona de Mafra. Esperava-me um almoço na casa da minha irmã.
Com aquele tempo a convidar, apesar de aquela zona ser sempre pró “arejado”, para o fresquinho, o almoço ia ser ao ar livre, no quintal. Ao ar livre, é como quem diz, ia ser debaixo de um toldo, um toldo também “protegido” lateralmente. Era uma espécie de tenda. Já viram a dificuldade que um “urbano” tem para chamar pelos nomes “mobiliário” de jardim (ou quintal)? Bom, mas assim, mais “aconchegados”, estávamos melhor, não havia dúvida. Que flor-de-cheiro que tem sempre que estar numa redoma!
Enfim, o almoço foi “andando”, na “paz do Senhor”, certamente, à base de grelhados, como convém, num repasto ao ar livre. Deve ter sido bem “regado” com um fresco Mundus (passe a publicidade).
E de repente, no meio daquela calmaria, já na sobremesa ou no café, um susto daqueles! Alguém ou alguma coisa apertou-me, do lado de fora da “tenda”, através da cortina de plástico, com toda a força, a minha cabeça! Fiquei sem pinga de sangue! Quase que ia tendo um “chelique”!
O que foi aquilo? De onde veio o ataque? Quantos São eles?
Afinal tinha sido uma das gatas da minha irmã, a Preta! Estava no quintal e, começou a ver uma sombra de um lado para o outro. Achou estranho. Uma sombra ali dentro? Ora, com toda certeza, pacientemente, como é típico nos felinos, armou o salto e, atacou!
Foi muito bem-feita!
Se tivesse deixado a garrafa de Mundus mais sossegada, depois, no final da refeição, se calhar, não estaria tão “expansivo”, a minha cabeça não teria “abanado” tanto!
Conclusão: Mundus e gatos não ligam muito bem.

23
Jan15

Bolacha Maria

correspondente

Aqui está um episódio, se calhar, para quem tem crianças em casa (o que não é o meu caso), perfeitamente banal.
Um destes dias, ia eu no autocarro, sentado no “lugar das grávidas”, naqueles que são dois frente-a-frente, dos que, invariavelmente, o “vizinho” da frente, aproveita para meter conversa. Mas, por acaso, até àquele momento, os dois à minha frente, iam desocupados. Entretanto, entra a avó e a neta e, passam a estar ocupados. Apesar de a avó e a neta irem entretidas numa alegre cavaqueira, a neta, de vez em quando, não deixava de me ir “controlando”. Os miúdos estão sempre prontos em “interagir”. Eu vou na “defensiva”. Como tenho falta de jeito para os miúdos, nestas circunstâncias, fico alerta. Os miúdos são muito imprevisíveis. Esta devia ter uns 5 ou 6 anos e era muito expansiva.
A viagem lá ia “rolando” sem nenhuma “ocorrência” a assinalar. A avó aproveitando o longo percurso, pelos vistos, que ainda faltava percorrer para a paragem onde iam sair, lá vai dando o lanche à miúda. Um leitinho e umas bolachinhas. Estou quase a sair. Afinal preocupei-me sem razão nenhuma. Que “mariquinhas” que eu sou às vezes.
Mas, naquele preciso momento, naquele momento em que estou a ficar menos “tenso”, a miúda olha para mim e pergunta-me:
- Queres uma bolacha?
Ao que eu, meio atrapalhado, lhe respondi:
- Obrigado.
Esqueci-me, portanto, já num crescente pânico, pois a “interação” estava a iniciar-se, de dizer não antes do obrigado. A miúda, assim, claro, entendeu o meu “obrigado” como um sim, que sim, queria uma bolacha. E então ela, com a maior naturalidade, de seguida, estende-me o bracito, aproxima, o mais que consegue, a sua mão a agarrar uma bolacha, da minha cara e diz:
- Toma. Abre a boca.
Eu, a avó e meio autocarro, explodimos numa risota!
Ela fica muito séria. A avó, meio a sorrir meio com ar grave, diz-lhe:
- Então, X, para dares a bolacha ao senhor, é preciso isso, pedir-lhe que abra aboca?
Resposta imediata e meio amuada:
- É o que costumas fazer comigo!

21
Jan15

Uma mosquinha-morta apanhada na teia

correspondente

Lá no escritório, existia um gabinete desocupado e, cuja localização, obrigava um corredor (o que nos levava até ao centro do dito “estaminé”) a fazer um L, ou seja, após passarmos a esquina desse gabinete, o corredor virava à direita, depois à esquerda e finalmente seguia em frente novamente.
A propósito ou não, o patrão (por vezes tinha esse hábito) inventou uma nova “necessidade”, um novo “cargo”, uma lacuna qualquer que ele vislumbrou no organigrama. Nunca saberemos se essa nova “necessidade” apenas surgiu, na sua cabeça, de modo a “compor o ramalhete”, que é como quem diz, de modo a ocupar o tal gabinete vazio, ou então, se era mesmo, uma falta imperdoável e, por isso mesmo, um cargo urgentíssimo a criar, um posto de trabalho imprescindível no bom desempenho da Firma. A verdade é que o plano se pôs em marcha, marcha que implicou uma pequena intervenção no gabinete. O patrão não gostava de gabinetes “opacos”, não gostava que depois de porta fechada, nada se visse, lá dentro, dos gabinetes. E neste caso concreto, dada a essa “necessidade” tão necessária (passe a redundância), o seu futuro ocupante, se estivesse, assim, tão fechadinho, tão “opaco”, no seu cubículo, até não seria de espantar, que uma vez por outra, caísse nos “braços de Morfeu”. Assim sendo, entram em campo as Construções X, especialistas em obras de “Santa Engrácia”, a quem lhes é encomendada a obra de grande vulto, a de substituir um painel de madeira, na esquina do gabinete, por um de vidro, deste modo, no futuro, quem passasse no corredor, podia ver o seu ocupante e o seu, mais que certo, ar compenetrado a desempenhar a sua enigmática, mas “árdua” tarefa. De pronto, o painel de madeira foi retirado, contudo, o vidrinho que o deveria substituir é que demorou um pouco mais a ser lá colocado, ficando o gabinete, por sorte, ainda desocupado, um bocado “esventrado”.
Neste espaço de tempo, entre mete e não mete o vidro, não é que um colega, com toda a certeza, com os mesmos dotes “visionários” do patrão, viu ali uma oportunidade de, sempre que ia pelo corredor, encurtar caminho, se ia para lá, metia-se pela porta do gabinete e saía pela abertura, aquela que estava “pacientemente” a aguardar o vidrito, se vinha no sentido inverso, aí ia ele direitinho à abertura e aparecia, ao dobrar a esquina, a sair da porta desse gabinete. Enfim, era um entretém, que como está bom de ver, apesar da “celeridade” das obras, tinha os dias contados, o colega foi de férias, e não é que, finalmente, os senhores das Construções X, descobriram o vidro certo para lá colocar e, vejam bem, até o colocaram! No dia em que o colega regressou de férias, vamos os dois a falar pelo corredor fora e eis senão quando, sem dar tempo de o avisar, este se enfia porta adentro, do escuro gabinete e, se vai “esborrachar” contra o vidrinho recentemente ali colocado, tal qual, uma mosquinha, como uma mosca-morta numa enorme teia de aranha!

Nota: Ainda bem que o patrão se lembrou do dito vidrinho, do vidro que mais parecia uma montra, uma montra para o interior do gabinete, um interior que seria tão desinteressante como qualquer outro, não fosse, depois de ocupado, a sua “inquilina”, ter, entre outros atributos, uns olhos esverdeados de tirar a respiração a qualquer um.
Já quanto ao que fazia ali, naquele gabinete, na Firma, até hoje é um verdadeiro mistério para mim.

20
Jan15

Muito British

correspondente

Um dia, num restaurante, um dos que fazia parte do vasto “arco” das imediações do escritório, aquele arco prevaricador que fazia “dilatar” a minha curta hora de almoço, eu e um colega estávamos junto do balcão das pizas de tabuleiro em punho, pois aquilo “funcionava” por balcões, uns para os grelhados, outros para os pratos do dia, bem como aquele para pizas e, depois era pegar num tabuleiro e escolher o balcão e esperar a nossa vez para decidir qual a variedade, naquele caso, dos ingredientes e aguardar o nosso “pitéu” pacientemente, entretanto aproveitava-se para ver a “paisagem”, o que na prática, no que se aplicava à minha pessoa, isso traduzia-se em olhar para a mesa no centro, para a mesa onde estavam as sobremesas, para abreviar tempo perdido, pois dali, das pizas, de tabuleiro aviado, o próximo passo, era a dificultosa tarefa de escolher essa “cereja” no topo da refeição e, depois lá se ia à procura de mesa, não sei antes, passar pela caixa e ficar com a carteira mais leve.
Ora muito bem, estávamos nós, eu e o meu colega, nessa espera, junto desse balcão, um balcão naquele momento sem empregado, este devia ter ido dar uma mão num dos outros balcões, quando, entretanto, chegou-se até ali outra dupla, outra dupla para as pizas, um senhor já “entradote”, com ar de não ser lá grande apreciador de pizas, acompanhado de uma jovem e atraente mulher, possivelmente a causadora daquele desvio alimentar do respeitável senhor. A jovem seria uma conquista recente ou uma conquista promissora? Não sabemos. O que sabemos é que o senhor parecia um “pavão”. Estava de facto contente consigo mesmo por estar na companhia dela, ali, em público.
Entretanto, o empregado, em passo rápido, ao ver gente a aguardar, veio até ali e, esgueirou-se, muito solícito, para detrás do balcão. O nosso “conquistador” virado para a donzela, meio de costas, para empregado, balcão, pizas e tudo mais, falava que falava. O balcão, era daqueles, que para permitir o acesso ao seu interior, num dos cantos, se levantava e, como quando o empregado entrou, claro, estava levantado, este entretanto, baixou-o, deixou cair aquele maciço tampo de madeira, deixou-o cair para o seu devido sítio.
E nesse preciso momento, o restaurante inteiro assustou-se, alguém deu um “berro” descumunal, seguido dos mais diversos palavrões. Foi o nosso cavalheiro. Uma das suas mãos, até ali, tinha estado meio esquecida, em cima do balcão, entre o “balcão levadiço” e o restante balcão. Levou um entalão!
Mas conforme perdeu a compostura (quem não a perderia?), rapidamente a recuperou, ainda por cima, ali, junto daquela “interessante” menina e, perante a pergunta do empregado:
- Tinha a sua mão onde?
Respondeu, num estilo muito british, com a maior das calmas, a tentar apagar a má impressão anteriormente causada por aquele urro de fazer inveja a um urso e pelo léxico menos próprio utilizado logo após esse berro:
- A minha mão, onde estava, pergunta o senhor? Estava precisamente aí, aí onde o senhor deixou cair essa parte do balcão.
E pronto, não me lembro se o senhor desistiu das pizas ou, se pelo contrário, se aguentou firmemente, ali, ao lado da sua dama, a sua vez. O que sei é que se ele queria atenção, se queria mostrar ao “mundo” a sua conquista, sem dúvida, conseguiu ser, naquele momento, o centro da atenção, não do mundo, mas pelo menos, do restaurante!

13
Jan15

Moby

correspondente

Há uns dias, ao recordar uma história com um final triste, ao recordar um episódio envolvendo um cão, o Dog lá de casa, de tempos idos, da casa dos meus pais, eu afirmei:
- A partir daí nunca mais quis um animal de estimação!
Mas em memória do Moby, aqui, nesta meia dúzia de linhas, reponho a verdade.
Um dia, não sei bem porquê, que bicho me mordeu, que tipo de inspiração soprou no meu ouvido, mas se calhar, ainda foi algum fenómeno de imitação reprovável, ou algum complexo de solidão momentâneo, certo, certo é que deu-me para ir a uma loja de animais e, num ápice, saio, de lá de dentro, com um aquário, daqueles clássicos, estilo globo, debaixo do braço e, numa das mãos um saco plástico, meio cheio de água, com dois peixes também dos clássicos, dos vermelhos.
Não passou muito tempo, um dos peixinhos, morreu. Tinha que comprar outro para fazer companhia ao peixe sobrevivente. Afinal se eu não queria estar sozinho na minha “enorme” mansão, com toda a certeza, o peixe também não queria estar sozinho naquele “enorme” oceano. Lá fui à loja, lá escolhi outro peixe, outro vermelho e, mais ou menos, do mesmo tamanho do outro. Lá veio noutro saco de plástico e, em casa, lá foi para dentro do aquário, fazer companhia ao sobrevivente. O novato foi logo ter com o residente. Pensei:
- Ora muito bem, assim é que é, já a fazer amizade!
Uns dias depois, ao olhar melhor para o aquário, percebi que ao primeiro peixe, ao sobrevivente, faltava qualquer coisa, a sua calda estava mais pequena. Passei a observar melhor aquele relacionamento, aquele amistoso relacionamento. Cruzes credo! O peixe que eu tinha trazido para fazer companhia ao coitado do sobrevivente, em vez disso, mordia que mordia no desgraçado! O “mutilado” já nem nadava direito.
Se queria que o sobrevivente continuasse a ser, de facto, um efectivo sobrevivente, tinha que os separar. Mas como? Dois peixes e um aquário! Olho, olho em volta, pela casa e, ali está a solução. Para malandro, malandro e meio (para não chamar outra coisa àquele peixe comedor de outros peixes), ali estava um garrafão de água, uns minutos depois e com alguma bricolage à mistura, zumba, peixe maroto, lá para dentro, para dentro de uma metade de garrafão.
O último a rir é quem ri melhor.
Duas semanas depois. O peixe sobrevivente não sobreviveu. E então, o peixe do garrafão, o Moby, passou para o aquário, para o aquário vazio, para o aquário agora todinho só para ele. Paciência, não havia outros peixes, outros peixinhos para morder, mas lá se acostumou!
O Moby durou 7 anos. Cresceu e, com os anos, foi mudando de “casa”, para casas cada vez maiores, contudo, dada a sua simpatia nata para com outros “conterrâneos”, teve sempre um oceano apenas e só para si!

07
Jan15

O Marialva

correspondente

Há muitos, muitos anos, quando comecei a trabalhar (sem ser apenas nas férias grandes), comecei numa firma que pela sua “pujança”, nos escritórios, necessitou, não de um estafeta, mas de dois e, daí a minha contratação. Um estafeta já tinham, faltava outro. Eu, até essa altura, era um menino da mamã, um puto que mal saía debaixo das saias da mãe. O outro, o estafeta já “residente”, apesar de termos mais ou menos a mesma idade, andávamos pelos 16 anos, era bem diferente, era um “Pintas”. Morava ali na zona dos escritórios, perto do Cais do Sodré e, já tinha a “escola toda”. Nós tínhamos um velhote que nos “comandava”, também ele bem “sabido”, aliás, ele e o marialva estafeta, eram dali, eram uns “castiços” representantes da “espécie” morador de bairro de Lisboa, quase vizinhos, mas mesmo assim, o mais novo, uma vez por outra, lá conseguia trocar as voltas às ordens do velhote JV. Veja-se, a título de exemplo, a tarefa das rendas, todos os meses, até ao dia 8, havia umas tantas rendas para pagar e, o que é que fazia o senhor “Pintas”? Nos dois primeiros dias, aí sim, trabalhava que nem um mouro, pagava aquilo tudo, as rendas todas, ia de lés-a-lés por Lisboa inteira mais arredores e, depois nos restantes dias, até ao oitavo dia do mês, saía calmamente, porta fora, atirando a frase da praxe ao nosso chefe:
- Vou pagar as rendas que ainda não paguei!
Que lata!
Contudo, nem tudo eram rosas, o marialva tinha um segredo. Um segredo que escondia muito bem. Um segredo que manchava a sua reputação de “Pintas” enão só. Um segredo que a coscuvilhice de uma coleguinha me revelou. O grande Marialva, todos os meses, no envelope do seu ordenado, levava para casa, umas notas a menos, umas notas descontadas à cabeça, umas notas tiradas pela secção de pessoal para abater a uma dívida que tinha na firma. Uma dívida, “contraída”, exactamente, numa altura em que andava entretido a pagar umas rendas e, que segundo constou, uma prostituta, bem mais sabida, com a sua lábia toda (acrescida dos seus opulentos atributos) o desviou do bom caminho e lhe ficou com o dinheiro, com as notinhas todas destinadas a essas rendas, ainda por cima, por apenas uma rapidinha “entrevista”. Uma tão rápida entrevista, que diziam as más-línguas, que na verdade, o “Pintas” não teve direito a nada de nada, que tinha pago e bem pago, mas que ficou a ver navios!
A firma “emagreceu”, o Marialva deixou-nos e, eu tentei seguir as pisadas desse castiço estafeta, no que respeita ao exemplo das rendas, não no caso da prostituta, claro está!

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