Feijão muito verdinho
Era Inverno, estávamos em fins de Janeiro e, o dia estava de acordo com a estação do ano, chovia, fazia vento e estava frio. Eu mais um compincha, de manhã, muito cedo, tínhamos apanhado a camioneta, não já do Eduardo Jorge, mas ainda, a da Rodoviária Nacional, a camioneta que nos tinham dito que ficava perto do nosso destino. Não foi bem assim. Ficou longe. De trouxa às costas, que é como quem diz, de saco às costas, lá fomos nós, por aquela estrada fora, por aquela estrada “interminável”, aqui e ali, já com outros grupos, também de saco às costas, a caminharem pela berma dela, todos a confluírem, era mais que certo, para o mesmo destino. O quartel da Carregueira. Ia para a tropa.
Chegámos. Entrámos. E foi um dia longo, um dia que demorou, demorou e demorou a chegar ao fim.
Teve diversas “actividades”, actividades a que não estávamos habituados, pelo menos eu, um jovem escriturário, que pelos vistos, estava muito mal habituado, mal preparado para o que estava à minha espera, desde a “formatura” na parada, ainda vestidos à civil, de guarda-chuva fechado, portanto, ali à chuva e ao vento, a aguardar a chamada ou lá o que era, para irmos almoçar, até aquela “vacinação” em série, de seringa em punho com uma agulha enorme, espetada nas costas, quase a trespassarmos, ou isso já foi mais tarde, já foi noutro dia? Não sei não me lembro, mas da agulha lembro-me bem!
E no meio dessas “animações” iniciais, que nos estavam reservadas para esse dia, tivemos a inspecção. Durante todo aquele dia, ora num edifício, ora noutro, lá estávamos nós, em filinha indiana, a aguardar, para isto e para aquilo e, numa dessas filas, ficámos a saber, que ali, o que nos aguardava era uma inspecção. Uma inspecção que consistia em “desfilar”, numa sala, onde estavam sentados lado-a-lado, a uma mesa comprida, uns senhores (creio que eram médicos), perante os quais, desfilávamos “como Deus nos trouxe ao mundo”, também numa filinha ordeira. Que vexame!
A coisa teria corrido bem, mas para variar, parece que fiz asneira da grossa. Estava já a meio da “passagem de modelos”, quando, lá fora, se ouve um baque, seguido de uns risinhos, logo abafados por umas grandes “asneiradas” ditas por alguém. Esse alguém, um Furriel, entrou na sala e, vermelho de raiva, perguntou:
- De quem aquele saco que está ali no meio do caminho?
Era o meu e, ele tinha acabado de tropeçar nele, dera um grande trambolhão!
Escusado será dizer, que apesar desse Furriel, depois, não me ter “calhado na rifa”, não era o do meu pelotão, apesar disso, sempre que nos cruzávamos, claro, quem saía na rifa era eu!
