Eduarda (s)
Um internamento numa unidade de cuidados continuados, em comparação com um internamento num hospital, é passar do oito para oitenta. Tudo é diferente, claro, como não o poderia deixar de ser, tendo em conta, logo à partida, o meio envolvente. E só o facto de passarmos de um local para o outro, no que se refere ao nosso estado de saúde, isso, já significa, só por si, que estamos bem melhor. Contudo, apesar dos esforços das auxiliares e restante pessoal, não deixa de ser uma gaiola, mais dourada, mas uma gaiola na mesma.
Há dois meses estive numa dessas unidades. Vinha do hospital para passar ali trinta dias. Uma convalescença resultante de uma queda. No meu quarto, de três camas, só a do meio estava ocupada. Dei ali entrada pela hora de almoço e, ao meio da tarde, quando, finalmente, eu descansava da “transferência”, estendido na cama, com um olho meio aberto e outro meio fechado, o meu companheiro de quarto, recebe a visita da sua esposa e, ouvi-o a cochichar para ela:
- Depois diz à X que deixe de trazer às visitas os miúdos, estás a ver, agora já não estou sozinho e eles fazem muita algazarra, o senhor aí do lado pode não gostar.
A X era a filha e os miúdos, os filhos desta, os seus netos.
Deixei a esposa do meu “vizinho” ir-se embora e, na primeira oportunidade disse ao meu melindrado companheiro de quarto, ao Sr.A:
- Sr. A deixe lá vir os seus netos às visitas, era o que mais faltava deixarem de vir por minha causa, não faz mal se fazem barulho, é próprio da idade, quantos anos têm?
E assim fomos nos conhecendo.
Os miúdos eram dois, uma rapariga e um rapaz, ele mais velho, pelos onze anos, mais “sério”, ela, pelos cinco anos, uma peste, uma peste mas no bom sentido.
As visitas da miúda eram uma verdadeira bênção, para o avô e por acréscimo para mim, puxando um pouco para o poeta, eram uma explosão de cores naquele ambiente assim para o cinzentão.
Um dia a minha irmã, numa das suas visitas, cruzou-se com a mãe e com a miúda e, metendo conversa, perguntou-lhe:
- Então como te chamas?
Uma daquelas perguntas da praxe que se fazem às crianças.
- Eduarda, Maria Eduarda.
Respondeu ela.
Mais tarde comentou a minha irmã comigo:
- Maria Eduarda é um nome forte e não muito comum em geral e, muito menos nestas paragens, mas é bonito.
Concordei.
Logo no dia seguinte, a Eduarda, de novo interrogada acerca de qual era o seu nome, desta vez, por uma das auxiliares, disse o seu nome e, então, a auxiliar comentou:
- A minha filha também se chama Eduarda. É Eduarda Maria.
- E eu sou Maria Eduarda!
Respondeu a miúda, supostamente, com um nome invulgar, em geral e, em particular, ainda mais para aqueles lados!
Enfim, Maria Eduarda, fico para sempre em dívida contigo, não, não me refiro às moedas imaginárias que não dei pela refeição também imaginária que me serviste a mim e ao teu avô, numa das tuas “aparições”, numa das tuas brincadeiras, mas, isso sim, pelos momentos de fuga daquele espaço, de fuga daquelas quatro paredes que, sem querer, me proporcionaste.
Obrigado!
