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Há horas assim

Livro em construção

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Há horas assim

28
Ago16

Eduarda (s)

correspondente

Um internamento numa unidade de cuidados continuados, em comparação com um internamento num hospital, é passar do oito para oitenta. Tudo é diferente, claro, como não o poderia deixar de ser, tendo em conta, logo à partida, o meio envolvente. E só o facto de passarmos de um local para o outro, no que se refere ao nosso estado de saúde, isso, já significa, só por si, que estamos bem melhor. Contudo, apesar dos esforços das auxiliares e restante pessoal, não deixa de ser uma gaiola, mais dourada, mas uma gaiola na mesma.

Há dois meses estive numa dessas unidades. Vinha do hospital para passar ali trinta dias. Uma convalescença resultante de uma queda. No meu quarto, de três camas, só a do meio estava ocupada. Dei ali entrada pela hora de almoço e, ao meio da tarde, quando, finalmente, eu descansava da “transferência”, estendido na cama, com um olho meio aberto e outro meio fechado, o meu companheiro de quarto, recebe a visita da sua esposa e, ouvi-o a cochichar para ela:

- Depois diz à X que deixe de trazer às visitas os miúdos, estás a ver, agora já não estou sozinho e eles fazem muita algazarra, o senhor aí do lado pode não gostar.

A X era a filha e os miúdos, os filhos desta, os seus netos.

Deixei a esposa do meu “vizinho” ir-se embora e, na primeira oportunidade disse ao meu melindrado companheiro de quarto, ao Sr.A:

- Sr. A deixe lá vir os seus netos às visitas, era o que mais faltava deixarem de vir por minha causa, não faz mal se fazem barulho, é próprio da idade, quantos anos têm?

E assim fomos nos conhecendo.

Os miúdos eram dois, uma rapariga e um rapaz, ele mais velho, pelos onze anos, mais “sério”, ela, pelos cinco anos, uma peste, uma peste mas no bom sentido.

As visitas da miúda eram uma verdadeira bênção, para o avô e por acréscimo para mim, puxando um pouco para o poeta, eram uma explosão de cores naquele ambiente assim para o cinzentão.

Um dia a minha irmã, numa das suas visitas, cruzou-se com a mãe e com a miúda e, metendo conversa, perguntou-lhe:

- Então como te chamas?

Uma daquelas perguntas da praxe que se fazem às crianças.

- Eduarda, Maria Eduarda.

Respondeu ela.

Mais tarde comentou a minha irmã comigo:

- Maria Eduarda é um nome forte e não muito comum em geral e, muito menos nestas paragens, mas é bonito.

Concordei.

Logo no dia seguinte, a Eduarda, de novo interrogada acerca de qual era o seu nome, desta vez, por uma das auxiliares, disse o seu nome e, então, a auxiliar comentou:

- A minha filha também se chama Eduarda. É Eduarda Maria.

- E eu sou Maria Eduarda!

Respondeu a miúda, supostamente, com um nome invulgar, em geral e, em particular, ainda mais para aqueles lados!

Enfim, Maria Eduarda, fico para sempre em dívida contigo, não, não me refiro às moedas imaginárias que não dei pela refeição também imaginária que me serviste a mim e ao teu avô, numa das tuas “aparições”, numa das tuas brincadeiras, mas, isso sim, pelos momentos de fuga daquele espaço, de fuga daquelas quatro paredes que, sem querer, me proporcionaste.

Obrigado!

15
Ago16

Obedecer às cegas

correspondente

Um certo dia desloquei-me a uma associação de cegos em Lisboa. Ia à secretaria da dita associação. Toquei à campainha. Lá de longe, de algures daquele edifício, abriram a porta. Subi meia dúzia de degraus, passei por outra porta e, dei por mim, meio perdido. Era a primeira vez que ia ali. Pensei que ia apenas encontrar administrativos nas suas secretárias, que ia encontrar a disposição de um escritório. Mas na minha frente, afinal, deparei-me com um refeitório, uma sala de convívio, ou lá o que era aquilo. Olhei para o meu lado esquerdo, pior, aquilo, ou era uma cozinha, ou um bar, ou as duas coisas. Fiquei baralhado. Será que me tinha enganado na morada? Nem olhei para o meu lado direito. Entretanto percebi que não, que não me tinha enganado. Os dois ou três homens que estavam naquela sala, naquele momento, eram cegos. De onde estava, ainda junto à porta, perguntei a um deles:

- Boa tarde amigo. Onde fica a secretaria?

- Está a ver as escadas atrás de si? Depois é a terceira porta.

Respondeu um deles.

Agradeci. Virei-me, sem pensar muito, de modo automático, seguindo as indicações, desci as escadas, as únicas que tinha visto até aí, as escadas que me tinham levado até ali e, dei por mim de novo na rua. Olhei para cima e para baixo, mas naquele passeio, naquela rua, não havia mais nenhuma porta.

Algo estava mal nas indicações. Ou no seguidor delas.

Voltei a repetir o processo, que é como quem diz, voltei a tocar à campainha. Abriram a porta. Entrei. Subi os degraus e, ao passar a segunda porta, vi, do meu lado direito, de facto umas escadas, umas escadas que subiam e, lá em cima, lá estavam, num corredor, duas ou três portas.

Por que carga de água, da primeira vez, não olhei logo para o meu lado direito e, segui cegamente, literalmente, as indicações de quem não consegue ver, portanto não advinha, que escadas, de facto, estavam atrás de mim, quando lhe perguntei onde era a secretaria?

Escusado será dizer que subi essas escadas, sorrateiramente, sem fazer qualquer pergunta, de modo a que os três homens, os da sala, não percebessem que o parvo que tinha entrado, era nada mais, nada menos, que o mesmo, aquele que tinha virado costas e tinha saído depois de perguntar onde era a secretaria!  

05
Ago16

Caldeirada (sem peixes) ao lume

correspondente

No Minho, em Caminha, na chamada ponte Entre-Os-Rios, entre o rio Minho e o rio Coura. Em tempos idos, numas férias, em Agosto, um certo dia, lá estão, em cima da dita ponte, meia dúzia de pescadores, daqueles que aparecem por ali, nesta altura, durante as férias. De cana em punho, entre eles, lá estávamos, eu e o meu pai, uns “pescadores” dentro do género dos restantes convivas de ocasião.

Era perto do meio-dia. Tínhamos chegado pelas 10 horas e, nessa altura já estavam ali alguns deles, tinham vindo pelas 8 ou 9 horas da manhã. Estávamos todos a dar banho à minhoca, que é como quem diz, quanto a peixes, nada de nada, perdão, nada de nada, quanto à pescaria, porque, peixes, era só olhar para água limpinha e, até saltavam fora da água.

Nisto aparece mais um, mais um de balde e cana, a tentar a sua sorte. Era dali, era conhecido do meu pai e de mais alguns, cumprimentou-nos e perguntou:

- Então isso está a dar alguma coisa?

- É como vês pá, estamos aqui desde manhã cedo e, espreita para os nossos baldes, nem um mordeu.

Responderam quase todos em coro.

- Vamos lá a ver se tenho mais sorte. A minha mulher está a fazer uma caldeirada agora para o almoço. Mas queria levar mais alguns para acrescentar.

Respondeu este com ar sério.

Os outros sorriram e pensaram, todos ao mesmo tempo de certeza, que a caldeirada ia ficar pobrezinha se ficasse à espera desta pescaria.

Entretanto, no espaço de meia hora, o homem, lançava, puxava e era só a encher o baldezinho dele de peixes, perante as bocas abertas (e as mãos a abanar) dos outros.

- Bom, isto já deve chegar, a caldeirada já deve estar quase ao lume, é só amanhar estes e juntar ao tacho. Até logo meus senhores e boa pescaria.

Disse ele a despedir-se e, lá foi ele, de balde carregado, a perder-se no interior da vila.

02
Ago16

As primas Dálias

correspondente

Há muitos anos, um dia, tocou o telefone lá em casa, a minha mãe atendeu e, não sei se falou com a própria, dita prima Dália, ou se recebeu um recado de alguém, de alguém encarregado de transmitir a visita da prima Dália, a Prima Dália vinha almoçar a nossa casa no próximo fim-de-semana. Este tipo de “recados” eram comuns. Não havia telefone em todas as casas e, então os poucos que o tinham, muitas das vezes serviam de “pombos-correios”, entre os vizinhos, uns deixavam os vizinhos fazer os telefonemas e outros, se calhar com receio de que estes estivessem horas agarrados ao telefone, davam eles mesmo os recados.

Mal desligou o telefone, pensativa, a minha mãe, ficou a puxar pela memória, a tentar lembrar-se de quem era afinal a prima Dália, mas lá encontrou uma prima Dália na nossa família e, por sinal, era uma prima daquelas que, ostensivamente, limpa o assento da cadeira que lhe oferecem antes de se sentar, principalmente, se a casa é de uns primos, digamos, de uma classe desfavorecida, assim, para os pobrezinhos. Portanto, a casa era modesta, estava limpinha, mas, até ao fim-de-semana, tinha que estar um brinco, decretou a minha mãe. Ela e os seus ajudantes de meia-tigela, Eu e a minha irmã, não nos poupámos, a casa andou num virote, mas estava irreconhecível, na manha desse Sábado, o da visita da prima Dália.

Já com o almoço adiantado (provavelmente algo especial também), aí vai a “comissão de honra”, a minha mãe e os seus ajudantes (o meu pai torceu o nariz a tantas solicitudes), esperar a prima Dália na “estação” dos comboios.

Ali estamos nós, no apeadeiro, quando aparece por ali também um nosso vizinho:

- Bom-dia Sr. X. Por aqui hoje, num Sábado, vai trabalhar?

Perguntou a minha mãe.

- Não, venho esperar a minha prima, a minha prima Dália

Respondeu o Sr. X.

Mau, duas primas, Dálias e, ambas vêm hoje de comboio!!

Conclusão. Este nosso vizinho, nesse tempo, usava também o nosso telefone, para fazer algumas chamadas e também tinha dado o nosso número a familiares, assim, volta e meia, lá recebíamos uma chamada que não era para nós, era para o vizinho. Foi o caso desta.

Mistério, se nós não lhe demos o recado, de que a prima Dália vinha aí, como é que o vizinho, nessa manhã ali estava à espera da prima? Nunca percebemos!

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