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Há horas assim

Livro em construção

Livro em construção

Há horas assim

19
Out17

No outro lado da linha

correspondente

A central telefónica estava, mais ou menos, entre as duas secretárias, a minha e aa da colega, mas mais no lado dela, era uma das suas funções, “pilotar” aquilo, que é como quem diz, atender as chamadas. Existia ali a ideia errada que qualquer um de nós o deveria fazer. Ideias ligadas à polivalência. Ideias muito interessantes. Não fosse o caso de um ter sido contratado para, entre outras funções, assumir aquela, ter aceitado a remuneração de acordo com isso a e, o outro, ter aceitado também a sua remuneração, de acordo com as funções para as quais, em tempos, tinha sido contratado, das quais não fazia parte aquela. Teimosia à parte, mais que justificada, claro, estando disponível, em caso de ausência temporária da colega, este lá ia atendendo, uma ou outra chamada, quanto mais não fosse, para deixar de ouvir a central a “apitar”.

Mas, pelo menos uma, uma chamada, diária, quase sempre, pela mesma hora, eu, esforçava-me por atender, deixava tudo o que estava a fazer e, corria a estender a mão para o telefone, estivesse a colega, ali, pronta a atender ou não. Do outro lado da linha, estava uma “menina” com uma voz que me deixava derretido, não era para mim, a chamada, que pena, era para o armazém, contudo, ficávamos ali, os dois, em “salamaleques” uns minutos antes de eu, por fim, lá me resolver em passar a chamada.

Com a colega, a dar menos nas vistas, mais recatada, passava-se, algo do género, com alguém, do outro lado da linha, curiosamente, da mesma empresa, da empresa da menina de voz doce.

- O senhor X é tão educado, tão distinto, sim senhor, é um cavalheiro, etc. etc.

Dizia ela, a colega, coisas deste tipo, mais para si do que para este seu colega da secretária do lado, ao desligar a chamada. E enfim, assim, ficávamos nós, com os nossos botões, se calhar, cada um de nós, a imaginar, a dar corpo àquelas vozes.

O dia chegou, tanta “corda” se deu, de parte a parte que, a prometida visita aconteceu, a pretexto de qualquer coisa, ou de coisa nenhuma, a curiosidade a morder, uns papeis a entregar por mão própria, serviram a causa, os dois colegas, a voz doce e o senhor X, apareceram, ali, nas nossas instalações.

Ficaram, do outro lado, na espécie de balcão, existente entre o armazém e o nosso gabinete. O senhor X, quase que teve de se pôr em bicos-dos-pés, para chegar ao balcão e, dali, de sorrisinho, cumprimentou-nos e, lá trocou, atrapalhado, meia dúzia de palavras de circunstância, com a minha colega.

- Que saco de batatas! Baixinho, gordo e feio!

Exclamou ela depois.

- Imaginava outra figura para aquela voz!

Desabafou ainda.

Quanto à voz doce, não me desiludiu, era bonita, mas, alguém, um meu colega, com a melhor das intenções, acredito, aos meus ouvidos, tinha soprado, antes, coisas pouco abonatórias acerca dela, coisas que estupidamente esfriaram o meu entusiasmo.

Pelo meu “arrefecimento”, ou então, tal como o senhor X foi uma desilusão para a minha colega, eu, se calhar, talvez também tenha sido um desastre para a voz doce, certo, certo é que, as seguintes chamadas, quando as atendia, eram rapidamente reencaminhadas ao armazém, ficando no ar, entretanto, a vaga promessa, de um encontro para um “cafezinho”, nunca concretizado.

15
Out17

Nem sequer um “tirinho” ao alvo

correspondente

Descrevo aqui o episódio que se segue porque, de certo modo “cumpre” os critérios deste blogue, por ser caricato e por se aplicar a ele (e bem) o título do blogue, há horas assim, porém, apesar de hoje em dia ter percebido que a maior parte daquilo que nos acontece não estar nas nossas mãos e, acontecer, precisamente, num minuto, num segundo, num ápice, muitas das vezes por um mero acaso, nessa altura, não tinha percebido isso assim de forma tão evidente, enfim, coisas que a chamada “experiência de vida”, nome pomposo dado ao envelhecimento, nos traz e, embora também este episódio, não ter um final feliz, antes pelo contrário, ter modificado de forma negativa o rumo da minha vida, optei, mesmo assim, aqui “escrevinhar” umas linhas a contar o sucedido na altura.

Cumpre acrescentar, para que não fique por cá, no blogue, no post, uma nuvem muito negra que, na vida, felizmente, existem episódios destes, episódios negativos, outros positivos e, o importante é viver, se possível, com um saldo positivo, se o saldo não for assim tão positivo, pelo menos valorizemos os episódios menos maus.

Finda que está a veia filosófica, de imediato, passemos aos factos.

Estou, “nuzinho da silva”, assim como vim ao mundo, frente ao senhor doutor, no dia em que entrei no quartel, na minha fugaz ida à tropa e, este, medindo-me de alto a baixo, diz:

- Você é magrito, mas não posso mandar ninguém embora por ser um trinca-espinhas, não tem mais nada a apontar contra si?

Não tenho mais nada? Como se ser magro fosse um problema, uma doença! Enfim, engoli o orgulho ferido e respondi:

- Não.

- E usa óculos porquê?

Tentou ele de novo arranjar qualquer coisa para correr com aquele pau-de-virar-tripa.

- Miopia.

Respondeu este mal-humorado candidato a ser rejeitado no exército. Não é que fizesse muita questão em cumprir o serviço militar obrigatório, mas já que tinha sido dado como apto na inspecção, dois anos antes e, já que ali estava, no quartel, aquilo, verdade seja dita, estava a mexer com a minha autoestima.

- E qual é a graduação das lentes?

Insistiu ele, naquela obstinação, na obstinação em correr comigo.

- Não sei.

Rosnei eu. Sabia que tinha miopia. Mas sabia lá a graduação. E mesmo que soubesse, agora é que não lhe dizia, isso era certo.

- Bom, vou pedir uma consulta para si, no hospital militar, de oftalmologia, mas duvido que o mandem embora por causa disto.

Isto é que ele era teimoso.

Passaram-se cerca de duas a três semanas, de vida, mais ou menos regular, de recruta, no quartel, com os intervalos de idas a casa ao fim-de-semana e, finalmente, lá fui, num certo dia, eu e outros, de manhazinha, na camioneta da tropa, a Lisboa, ao hospital, no meu caso, para aquela consulta, aquela que o obstinado doutor tinha marcado, a de oftalmologia. Na consulta, depois das perguntas da praxe e, perante alguém de pé atrás, de alguém que olhava para mim, a pensar, tipo, cá está outro a tentar “fugir” á tropa, ainda por cima, por ter miopia, apanho cada um, no meio destas, quase certas divagações com os seus botões, apontou para o quadro das letrinhas e perguntou-me:

- Então, quais são as letras, aquelas da linha de cima?

- Não sei, não consigo, assim, ler nada!

Respondi, atrapalhado, eu próprio, desconcertado.

- Está a brincar comigo, não está? Aquelas letras são as maiores!

Respondeu ele, já com a certeza, claro, de que se confirmava, de que estava perante um a querer escapar ao serviço militar.

- Não consigo ver as letras, não pode apagar a luz do quadro, esta, assim ligada está a ofuscar-me.

Era verdade, em todas as consultas de oftalmologia que até então tinha ido, não existia aquele tipo de quadro, eram apenas uns simples papeis, com as letrinhas, afixados na parede em frente.

O médico, meio desconfiado, então, apagou a luz do quadro e, voltou a perguntar, quais eram as letras da primeira linha. Respondi acertadamente às da primeira e a mais umas tantas, das linhas abaixo. Até ele me interromper. Olhou para mim, agora com “cara de caso”, mais sério, pediu-me para mudar de cadeira, para ir para uma outra, uma onde tinha outro equipamento, espreitou cá para dentro e, fez-se luz para ele, descobriu qualquer coisa. Para ter a certeza, puseram-me umas gotinhas, pediu-me para aguardar, de olhos fechados, na sala de espera. O tempo passou. O motorista do quartel descobriu-me ali, disse que era para regressarmos, o médico, viu-o, disse-lhe que eu ia ficar, só ia ao final do dia, parece que vinham de manhã, regressavam de manhã e, de tarde repetia-se a rotina. Fiquei então. Uma meia hora depois, das gotinhas terem feito efeito, voltei ao consultório, nova espreitadela e, confirmava-se, tinha uma doença grave nos olhos, tão grave que, ironia das ironias, iria ficar a aguardar junta médica, uns dias, uma junta médica que me ia livrar do serviço militar obrigatório. O médico do quartel, sem querer, tinha adivinhado.

Nesse dia a única coisa boa foi o almoço. Não era suposto o recruta ficar por ali, para almoçar, mas como ficou, portanto, deram-lhe uma senha e, pela hora do almoço, lá estava um recruta, no meio de generais ou afins, numa messe de oficiais, ou coisa parecida, a ser servido por criado de mesa, perante uma comidinha bem caprichada, muito diferente da do quartel e, não havia dúvida, a usufruir de tudo que não tinha direito. Magra compensação.

Este recruta, na tropa, umas três ou quatro semanas, carregou uma G3, para trás e para a frente, desmontou-a, montou-a, limpou-a muito bem e, no dia de irem para a carreira de tiro, nem um tirinho deu, foi embora. Espertos eles. Devem ter acertado o calendário da junta com o tiro do pitosga ao alvo. Acho que não, que foi pura coincidência, mas que foi uma coincidência feliz, lá isso foi.

Afinal, não se perdia nada, com a sua saída, ele só estava a denegrir a imagem de virilidade do exército, pois já anteriormente, numa instrução nocturna, este vosso pitosga, por não conseguir ver nada, de noite, no meio do campo, sem luzes nenhumas (outra descoberta feita só nessa altura), depois de alguns tropeções, de algumas rasteiras involuntárias passadas a colegas, fez o resto da instrução e regressou ao quartel de mãozinha dada ao furriel. Que vergonha!

14
Out17

Flores (se fosse possível) invisíveis

correspondente

De modo a evitar equívocos, tudo o que vou contar a seguir, não é pura imaginação, mas também não se passou comigo, como de costume, foi com um amigo, com um amigo sempre conveniente, sempre à mão-de-semear, quando queremos contar alguma coisa mais comprometedora, para nós, ou para alguém nosso conhecido.

 

Então, há alguns anos, estava esse meu amigo no seu trabalho, sentadinho à sua secretária, do outro lado da sala, noutra secretária, estava a sua colega de gabinete e, era a paz total, o chefe e o patrão, possivelmente ainda entretidos à mesa, no almoço, estavam, por enquanto, ausentes, portanto, patrão fora, dia santo na loja, ou seja, a trabalhar, deviam estar, esses dois, mas numa velocidade “cruzeiro”, sem pressas.

Com pressa, veio, esse sim, o estafeta, aquele que lhes apareceu à frente, carregado com um enorme ramo de flores. Feita a entrega, num estalar de dedos, desapareceu. Não, o ramo, não era para o meu amigo, nem para a sua colega, era para o chefe deles. A colega, espreitou o cartãozinho e, viu, era de, já que estamos em maré de amigos, uma “amiga”. O referido ramo de flores, talvez por uma questão de espaço, ficou a aguardar a entrega, ao destinatário final, junto à secretária do meu amigo.

Finalmente, patrão e chefe, bem-dispostos, chegaram. O meu amigo nem deixou o chefe respirar, num pulo, foi até junto deles, de ramo na mão e, possivelmente, com ar presenteiro, ao mesmo tempo que estendia o ramo na direcção do chefe, disse:

- São para si!

- Para si!?

Exclamou, interrogou, logo, o patrão.

O chefe deu uma olhadela ao cartão e, meio embaraçado, ficou de ramo na mão, sem saber bem o que fazer naquele momento.

Notando o embaraço, o patrão, picado, pelos olhares cúmplices, do meu amigo e da sua colega, sem rodeios:

- Quem lhe enviou isso X?

- Foi, foi, um amigo.

Respondeu, sem pensar, o chefe, de pronto.

- Um amigo!!!

Abriu a boca, de espanto, sem acreditar naquilo que acabara de ouvir, o patrão.

Naquele dia era o dia dos namorados e, da esposa do chefe, a proveniência do ramo, era certo, não tinha sido.

Foi pior a emenda que o soneto.

O lindo ramo, ao final do dia, por mero acaso, ficou esquecido, ali, no escritório. 

12
Out17

Uma pergunta inoportuna

correspondente

Parece que foi ontem, mas não foi, já passou mais de um ano, quando entrei naquele quarto, naquela unidade de saúde, para uma “estadia” prevista para um mês e, felizmente assim foi, recuperei dentro do previsto, o que era previsto recuperar (passe a redundância), no que se refere ao problema de saúde que ali me tinha levado. Era um quarto “catita” com três camas. Apenas a do meio estava ocupada. Ocupei uma outra e, quando a “comissão de recepção”, após me explicar mais ou menos a “logística” daquele espaço, passados uns minutos, nos deixou a sós, apresentei-me ao meu “colega” de quarto e, por alguns momentos ficámos calados os dois. Para quebrar o silêncio, perguntei, por perguntar:

- E então, está aqui, no quarto, sozinho há muito tempo, não tem tido “colegas”?

- Tive.

Respondeu ele laconicamente.

Eu deveria ter ficado por aí, mas não, perguntei:

- E então, o que aconteceu, a eles entretanto?

- Já foram.

Respondeu, de novo, laconicamente.

Insisti:

- Já foram, então, foram embora, melhoraram?

- Morreram.

Perante esta curta resposta dele, bom, escusado será dizer, nessa noite, dormi, mas tive pesadelos, pesadelos onde entrava aquele meu vizinho de cama, aquele, versão “viúva negra”, de quarto de unidade de cuidados continuados.

Como alguém dizia, para morrer, basta estar vivo e, aquilo era uma unidade de saúde, mas aquela ala era suposto ser a da convalescença.

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