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Há horas assim

Livro em construção

Livro em construção

Há horas assim

04
Out19

Os gatos deste tempo

correspondente

Quem tem, ou já teve, como animal de companhia, ou de estimação, não sei bem o termo técnico ou politicamente correcto, um gatinho, sabe ao que me refiro quando se anda à procura dele pela casa toda, pelos seus esconderijos habituais e nada, de gato nem sombra e, assim, como por magia, quando lhe apetece, aí está ele, sabe-se lá vindo de onde, mas com um ar do género: Andaste à minha procura? Andas a ver mal! Eu estive sempre aqui!

Os telemóveis são a versão actual destes gatinhos, neste tipo de situações, só que estes, os telemóveis, não desaparecem sozinhos, mesmo debaixo do nosso nariz, não têm vontade própria, somos mesmo nós, que lhes damos sumiço de vez em quando.

Faço apenas uma ressalva, episódios destes, desde que sejam motivados apenas por um esquecimento, digamos, saudável, no final, fazem-nos sorrir, outros há que, pela repetição, podem ser preocupantes.

- Estou farta de ligar para si e não me atende.

Disse a filha ao entrar em casa dos pais à sua mãe.

- Não sei onde se meteu o telemóvel.

Pais idosos, portanto, a questão se não deram pelo toque, não merece novo reparo.

- Ok. Eu vou ligar para o seu telemóvel e, logo vai aparecer, quando o ouvirmos a tocar, damos pelo sítio onde ele se meteu.

Como se ele tivesse patinhas como os outros, os gatos, os verdadeiros, os referidos lá atrás, acrescento eu, que sou apenas o narrador.

- Estou a ouvir alguma coisa, mas aqui na sala não está, o som está muito sumido.

E dizendo isto, a filha, volta a ligar, a tentar identificar de onde vem o som e, seguindo este, chega à cozinha.

Liga novamente, intrigada, não conseguiu, mal ali chegou, logo, descobrir de onde vinha o som.

Volta a ouvir o telemóvel fujão a tocar e, espanto, abre a porta e ali está ele a tocar e a vibrar alegremente.

Dentro do frigorífico!

02
Out19

Nem 8 nem 80

correspondente

Há dias encomendei online, um brinquedo, uma boneca de pano, ou de trapos, não para oferecer a uma criança, mas para uma senhora de idade avançada, a minha mãe e, quanto à entrega fiquei um pouco desiludido, não que tenha algo corrido mal, mas talvez por estar habituado, neste tipo de entregas, a horários mais curtos, mais específicos e não apenas a informação de que seria entregue no dia X e mais nada, o que realmente aconteceu, aí pelas 19 horas, logo, por acaso tinha disponibilidade, mas resultou em um dia inteiro à espera de uma boneca!

Então este episódio fez-me lembrar outro, outra entrega, com outra empresa desta área, de entregas ou distribuição, que em contrapartida, de modo eficiente e antecipado, aí com dois a três dias do dia previsto para a entrega, passe o exagero, me foi enviando, via e-mail, SMS, sinais de fumo etc., avisos e informação, cada vez mais pormenorizada, quase milimétrica quanto ao dia, à hora, ao minuto e ao segundo, acerca da previsão do momento dessa entrega. A coisa foi de tal forma que na hora, no minuto, no segundo, previstos, eu estava “ansiosíssimo” por essa entrega. Mas passou-se esse segundo, esse minuto, meia hora, da hora prevista e nada. Estranho. De repente, ou no e-mail, ou via SMS, cai a seguinte mensagem: “Passámos na morada indicada mas não se encontrava em casa para receber a encomenda e …”.

Não sei se o balão, o que foi enchendo, enchendo, com a multiplicação de tantos avisos, o balão de pura ansiedade para que a entrega se concretizasse rapidamente e pronto, se esvaziou num ápice, ou se explodiu de vez com aquela cretinice, alegarem que não estava em casa, quando há muito que eu já tinha quase estendida uma passadeira vermelha para tal ocasião, mas depois de tudo esclarecido, azar dos azares, de facto, a campainha da porta da rua, que provavelmente, até perto da hora, do minuto, do segundo, previstos para a entrega, estava a funcionar, mas por capricho, nesse preciso momento, resolveu não funcionar, não tocou, depois disso, aí passada uma meia hora, só para chatear, voltou a funcionar sem qualquer necessidade de algum tipo de reparação. Há horas, minutos, segundos, assim!

01
Out19

É bom sabermos que não somos os únicos

correspondente

Ficamos melhor quando descobrimos que não somos os únicos com algumas excentricidades, vulgo maluquices, como aquela minha, a de provar sempre um pouco da casca da laranja, tangerina ou afins, quando me preparo para comer algum desses citrinos. Ou aquela de miúdo, de esperar pacientemente, na cozinha, quando sabia que o acompanhamento da refeição ia ser batatas fritas, lá aguardava que aguardava que a minha mãe descascasse as mesmas, que as cortasse em palitos ou às rodelas e, depois lhes deitasse um pouco de sal por cima, para, enquanto iam e não iam para a fritadeira, eu (e a cúmplice da minha irmã) as íamos comendo mesmo assim, cruas e salgadas, creio até, que apesar de nos reprender, a nossa mãe já descascava umas tantas a mais a contar com isso!

Ontem, passou aqui por minha casa um amigo de longa data, tínhamos combinado sair, ir beber um café, pôr a conversa em dia, coscuvilhar, cortar na casaca, enfim, o passatempo preferido da maior parte de todos nós, embora não o admitamos, assim abertamente, contudo, também é certo e sabido de que muitos preferem mais aquela do tipo à janela bem ocultos pelas cortinas a coscuvilhar tudo o que se passa lá fora.

Bom, mas voltando ao ponto inicial, o que eu queria registar aqui, muito simplesmente, é que com essa visita constatei que, afinal não, não sou o único maluco, há mais e, se calhar muitos mais, cada um com a sua “mania”, ou mesmo mais que uma.

Então, como estava a aguardar uma entrega agendada para aquela altura, eu e o meu amigo não fomos à rua, desculpei-me e ofereci um café caseiro, o meu amigo aceitou, fui tirar o café e perguntei:

- Não queres açúcar pois não?

Já sabia que bebe o café sem açúcar.

- Não, obrigado, mas quero a colher na mesma.

E, assim, lá lhe servi a chávena de café, no respectivo pires e com a colher “exigida” e, lá observei o senhor a mexer o café com a colher, a mexer, a mexer, a misturar, no café, coisa nenhuma!

24
Fev19

Os senhores Polícias, os papões, do antigamente

correspondente

Há dias, aqui na Amadora, num supermercado, não estava um polícia, nem dois, estavam três, junto da porta, lá dentro.

 

A minha irmã, que deixou de morar nesta zona há muito, mora na “província”, apenas a cerca de 30 km daqui, na zona saloia, estranha isto, ver polícias a “guardar” os supermercados. Sinais dos tempos.

 

Mas pelos vistos, um, dois ou três, são poucos.

 

Estava eu na caixa, atrás de uma mãe acompanhada pela filha, uma miúda, tagarela como só visto, aí com uns 4 a 5 anos, quando, ela, veio provar isso mesmo, um, dois ou três, polícias, embora todos do género, daqueles guardas do palácio da rainha de Inglaterra, tipo, cara de pau, são poucos, são poucos para impor respeitinho.

 

Não é que a pirralha, ao passar por eles, ao sair com a mãe, se virou para esse “aglomerado” de senhores agentes, quase uma esquadra inteira, para os três representantes da autoridade e, em jeito de despedida, se saiu com esta:

 

- Então Adeus senhores polícias! Portem-se mal!

 

Não reparei, mas a mãe, provavelmente apressou o passo dela e do diabinho e, deve ter mudado de cor, assim para o pimentão.

 

Sim senhor, não há dúvida nenhuma, uma farda, é uma farda, nada como uma farda, para impor respeito, quanto mais três. 

16
Fev19

AM ou PM?

correspondente

- Vizinha, desculpe, é capaz de me dizer as horas?

 

Uma pergunta perfeitamente banal. Neste caso feita por outra vizinha, da sua janela, a quem passava na rua.

 

- São 7 horas vizinha.

 

Uma resposta normal a uma pergunta também idêntica.

 

- Desculpe vizinha, são 7 horas, mas da manhã ou da tarde?

 

E acabou aqui a normalidade!

16
Jan19

Tantas vezes o cântaro vai à fonte que um dia …

correspondente

Um certo dia, entrei numa loja, a acompanhar ali uma amiga. Ela ia e vai lá frequentemente. Olhei para o senhor que a atendeu e, pelos modos, pela fisionomia, dei-lhe o nome de Sr. Raposo.

 

A partir daí, sempre que ela dizia que ia a essa loja, eu lá trocava o nome do homem, na conversa entre nós, lá o tratava por Sr. Raposo.

 

E há pouco tempo, a amiga, entrou pela loja adentro a cumprimentar o senhor: Bom dia Sr. Raposo!

 

Pediu muitas desculpas pela confusão, amaldiçoo-me secretamente por a induzir naquele erro e, lá inventou que estava a confundi-lo com outra pessoa!

 

31
Dez17

Querido hoje estamos de Parabéns!

correspondente

- Senhor X não viu o meu marido aí na rua?

- Não!

- É um mandrião, mal lhe falei em me ajudar a lavar as janelas, desapareceu, apanhou-me distraída e saiu para a rua. Nem no dia de hoje fez um esforço!

- Hoje?

- Sim, hoje, eu e o meu marido fazemos anos de casados!

 

Eu acho que também fugia nestas circunstâncias! Lavar janelas no aniversário de casamento?? Só se esta senhora tinha algo em mente, algo que nos escapou, a mim e ao marido, alguma fantasia, alguma coisa mais erótica, que envolva janelas, água e afins, algo que não fosse para levar à letra!

11
Nov17

Damaia! Onde fica isso?

correspondente

Há muitos anos, um verdinho recruta, ou se calhar já com a recruta feita, a cumprir o serviço militar obrigatório em Viana do Castelo, pediu a transferência para Lisboa. Algo o chamava na capital, ou então, por outro lado, por vicissitudes da vida, naquela altura, era por nada o prender a Caminha, à sua terra natal, àquela terra que tanto recordou durante a sua vida, àquela vila que não queria voltar nessa altura e, da qual acabou por “aguçar” o interesse dos seus descendentes, ao ponto de, falo por mim, apesar de se contarem pelos dedos de uma mão as vezes que lá estive, sentir aquela vila como, não sei bem explicar, mas como o local de onde venho, a terra onde estão as minhas raízes, embora tenha nascido em Lisboa.

A transferência solicitada saiu. O capitão, imaginemos que era esta a patente, pois não sou muito entendido nos assuntos da “tropa”, Chamou-o e, com a ordem da transferência na sua frente, disse-lhe:

- Damaia. Saiu a resposta ao teu pedido, vais, ora deixa confirmar, Damaia, é isto mesmo, vais para um posto localizado neste sítio.

- Damaia! Mas isso fica onde?

Perguntou, meio perdido, o minhoto tropa.

- Deve ficar na zona de Lisboa, não foi para onde fizeste o teu pedido, para ires para Lisboa?

Responde, também meio perdido mentalmente no mapa de Portugal, outro, quase de certeza, minhoto, o capitão.

- Não quero ir. Eu pedi Lisboa. Sei lá onde fica essa Damaia.

Respondeu esse tropa de forma bastante inflexível na sua posição quanto a essa transferência para esse local não desejado, não por ter algo contra essa terra, apenas porque era uma ilustre desconhecida.

Fez o resto do serviço militar em Viana, no final do qual, voltou a Caminha e, pouco tempo depois, rumou a Lisboa.

Ironia das ironias, viveu, entretanto, depois de casar, mais de 50 anos, na “desconhecida” Damaia

Lembro-me bem daquele posto, aquele para onde o meu pai recusou a transferência, era um recinto vedado com uma casa e um depósito de combustível, na estrada militar, a caminho das portas de Benfica, de quem vinha da estação dos comboios da dita Damaia. Muitas e muitas vezes por lá passei a pé e de autocarro da Carris (de dois andares e verdinho) na companhia da minha irmã e da minha mãe, do meu pai, por ali, não me lembro de facto, de nos acompanhar, se calhar era um local que não gostava mesmo. Creio que não, o motivo era outro, normalmente aquelas idas eram aos dias de semana e, ele estaria por Lisboa, pela sua terra prometida, Lisboa, a trabalhar.

19
Out17

No outro lado da linha

correspondente

A central telefónica estava, mais ou menos, entre as duas secretárias, a minha e aa da colega, mas mais no lado dela, era uma das suas funções, “pilotar” aquilo, que é como quem diz, atender as chamadas. Existia ali a ideia errada que qualquer um de nós o deveria fazer. Ideias ligadas à polivalência. Ideias muito interessantes. Não fosse o caso de um ter sido contratado para, entre outras funções, assumir aquela, ter aceitado a remuneração de acordo com isso a e, o outro, ter aceitado também a sua remuneração, de acordo com as funções para as quais, em tempos, tinha sido contratado, das quais não fazia parte aquela. Teimosia à parte, mais que justificada, claro, estando disponível, em caso de ausência temporária da colega, este lá ia atendendo, uma ou outra chamada, quanto mais não fosse, para deixar de ouvir a central a “apitar”.

Mas, pelo menos uma, uma chamada, diária, quase sempre, pela mesma hora, eu, esforçava-me por atender, deixava tudo o que estava a fazer e, corria a estender a mão para o telefone, estivesse a colega, ali, pronta a atender ou não. Do outro lado da linha, estava uma “menina” com uma voz que me deixava derretido, não era para mim, a chamada, que pena, era para o armazém, contudo, ficávamos ali, os dois, em “salamaleques” uns minutos antes de eu, por fim, lá me resolver em passar a chamada.

Com a colega, a dar menos nas vistas, mais recatada, passava-se, algo do género, com alguém, do outro lado da linha, curiosamente, da mesma empresa, da empresa da menina de voz doce.

- O senhor X é tão educado, tão distinto, sim senhor, é um cavalheiro, etc. etc.

Dizia ela, a colega, coisas deste tipo, mais para si do que para este seu colega da secretária do lado, ao desligar a chamada. E enfim, assim, ficávamos nós, com os nossos botões, se calhar, cada um de nós, a imaginar, a dar corpo àquelas vozes.

O dia chegou, tanta “corda” se deu, de parte a parte que, a prometida visita aconteceu, a pretexto de qualquer coisa, ou de coisa nenhuma, a curiosidade a morder, uns papeis a entregar por mão própria, serviram a causa, os dois colegas, a voz doce e o senhor X, apareceram, ali, nas nossas instalações.

Ficaram, do outro lado, na espécie de balcão, existente entre o armazém e o nosso gabinete. O senhor X, quase que teve de se pôr em bicos-dos-pés, para chegar ao balcão e, dali, de sorrisinho, cumprimentou-nos e, lá trocou, atrapalhado, meia dúzia de palavras de circunstância, com a minha colega.

- Que saco de batatas! Baixinho, gordo e feio!

Exclamou ela depois.

- Imaginava outra figura para aquela voz!

Desabafou ainda.

Quanto à voz doce, não me desiludiu, era bonita, mas, alguém, um meu colega, com a melhor das intenções, acredito, aos meus ouvidos, tinha soprado, antes, coisas pouco abonatórias acerca dela, coisas que estupidamente esfriaram o meu entusiasmo.

Pelo meu “arrefecimento”, ou então, tal como o senhor X foi uma desilusão para a minha colega, eu, se calhar, talvez também tenha sido um desastre para a voz doce, certo, certo é que, as seguintes chamadas, quando as atendia, eram rapidamente reencaminhadas ao armazém, ficando no ar, entretanto, a vaga promessa, de um encontro para um “cafezinho”, nunca concretizado.

15
Out17

Nem sequer um “tirinho” ao alvo

correspondente

Descrevo aqui o episódio que se segue porque, de certo modo “cumpre” os critérios deste blogue, por ser caricato e por se aplicar a ele (e bem) o título do blogue, há horas assim, porém, apesar de hoje em dia ter percebido que a maior parte daquilo que nos acontece não estar nas nossas mãos e, acontecer, precisamente, num minuto, num segundo, num ápice, muitas das vezes por um mero acaso, nessa altura, não tinha percebido isso assim de forma tão evidente, enfim, coisas que a chamada “experiência de vida”, nome pomposo dado ao envelhecimento, nos traz e, embora também este episódio, não ter um final feliz, antes pelo contrário, ter modificado de forma negativa o rumo da minha vida, optei, mesmo assim, aqui “escrevinhar” umas linhas a contar o sucedido na altura.

Cumpre acrescentar, para que não fique por cá, no blogue, no post, uma nuvem muito negra que, na vida, felizmente, existem episódios destes, episódios negativos, outros positivos e, o importante é viver, se possível, com um saldo positivo, se o saldo não for assim tão positivo, pelo menos valorizemos os episódios menos maus.

Finda que está a veia filosófica, de imediato, passemos aos factos.

Estou, “nuzinho da silva”, assim como vim ao mundo, frente ao senhor doutor, no dia em que entrei no quartel, na minha fugaz ida à tropa e, este, medindo-me de alto a baixo, diz:

- Você é magrito, mas não posso mandar ninguém embora por ser um trinca-espinhas, não tem mais nada a apontar contra si?

Não tenho mais nada? Como se ser magro fosse um problema, uma doença! Enfim, engoli o orgulho ferido e respondi:

- Não.

- E usa óculos porquê?

Tentou ele de novo arranjar qualquer coisa para correr com aquele pau-de-virar-tripa.

- Miopia.

Respondeu este mal-humorado candidato a ser rejeitado no exército. Não é que fizesse muita questão em cumprir o serviço militar obrigatório, mas já que tinha sido dado como apto na inspecção, dois anos antes e, já que ali estava, no quartel, aquilo, verdade seja dita, estava a mexer com a minha autoestima.

- E qual é a graduação das lentes?

Insistiu ele, naquela obstinação, na obstinação em correr comigo.

- Não sei.

Rosnei eu. Sabia que tinha miopia. Mas sabia lá a graduação. E mesmo que soubesse, agora é que não lhe dizia, isso era certo.

- Bom, vou pedir uma consulta para si, no hospital militar, de oftalmologia, mas duvido que o mandem embora por causa disto.

Isto é que ele era teimoso.

Passaram-se cerca de duas a três semanas, de vida, mais ou menos regular, de recruta, no quartel, com os intervalos de idas a casa ao fim-de-semana e, finalmente, lá fui, num certo dia, eu e outros, de manhazinha, na camioneta da tropa, a Lisboa, ao hospital, no meu caso, para aquela consulta, aquela que o obstinado doutor tinha marcado, a de oftalmologia. Na consulta, depois das perguntas da praxe e, perante alguém de pé atrás, de alguém que olhava para mim, a pensar, tipo, cá está outro a tentar “fugir” á tropa, ainda por cima, por ter miopia, apanho cada um, no meio destas, quase certas divagações com os seus botões, apontou para o quadro das letrinhas e perguntou-me:

- Então, quais são as letras, aquelas da linha de cima?

- Não sei, não consigo, assim, ler nada!

Respondi, atrapalhado, eu próprio, desconcertado.

- Está a brincar comigo, não está? Aquelas letras são as maiores!

Respondeu ele, já com a certeza, claro, de que se confirmava, de que estava perante um a querer escapar ao serviço militar.

- Não consigo ver as letras, não pode apagar a luz do quadro, esta, assim ligada está a ofuscar-me.

Era verdade, em todas as consultas de oftalmologia que até então tinha ido, não existia aquele tipo de quadro, eram apenas uns simples papeis, com as letrinhas, afixados na parede em frente.

O médico, meio desconfiado, então, apagou a luz do quadro e, voltou a perguntar, quais eram as letras da primeira linha. Respondi acertadamente às da primeira e a mais umas tantas, das linhas abaixo. Até ele me interromper. Olhou para mim, agora com “cara de caso”, mais sério, pediu-me para mudar de cadeira, para ir para uma outra, uma onde tinha outro equipamento, espreitou cá para dentro e, fez-se luz para ele, descobriu qualquer coisa. Para ter a certeza, puseram-me umas gotinhas, pediu-me para aguardar, de olhos fechados, na sala de espera. O tempo passou. O motorista do quartel descobriu-me ali, disse que era para regressarmos, o médico, viu-o, disse-lhe que eu ia ficar, só ia ao final do dia, parece que vinham de manhã, regressavam de manhã e, de tarde repetia-se a rotina. Fiquei então. Uma meia hora depois, das gotinhas terem feito efeito, voltei ao consultório, nova espreitadela e, confirmava-se, tinha uma doença grave nos olhos, tão grave que, ironia das ironias, iria ficar a aguardar junta médica, uns dias, uma junta médica que me ia livrar do serviço militar obrigatório. O médico do quartel, sem querer, tinha adivinhado.

Nesse dia a única coisa boa foi o almoço. Não era suposto o recruta ficar por ali, para almoçar, mas como ficou, portanto, deram-lhe uma senha e, pela hora do almoço, lá estava um recruta, no meio de generais ou afins, numa messe de oficiais, ou coisa parecida, a ser servido por criado de mesa, perante uma comidinha bem caprichada, muito diferente da do quartel e, não havia dúvida, a usufruir de tudo que não tinha direito. Magra compensação.

Este recruta, na tropa, umas três ou quatro semanas, carregou uma G3, para trás e para a frente, desmontou-a, montou-a, limpou-a muito bem e, no dia de irem para a carreira de tiro, nem um tirinho deu, foi embora. Espertos eles. Devem ter acertado o calendário da junta com o tiro do pitosga ao alvo. Acho que não, que foi pura coincidência, mas que foi uma coincidência feliz, lá isso foi.

Afinal, não se perdia nada, com a sua saída, ele só estava a denegrir a imagem de virilidade do exército, pois já anteriormente, numa instrução nocturna, este vosso pitosga, por não conseguir ver nada, de noite, no meio do campo, sem luzes nenhumas (outra descoberta feita só nessa altura), depois de alguns tropeções, de algumas rasteiras involuntárias passadas a colegas, fez o resto da instrução e regressou ao quartel de mãozinha dada ao furriel. Que vergonha!

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