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Há horas assim

Livro em construção

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Há horas assim

07
Fev15

Aquela lata com design de carruagem das sardinhas da linha de Sintra de outrora

correspondente

Naqueles tempos era assim, na linha de Sintra, os comboios da CP, fazendo-se uma “marosca”, “puxando o ar”, acionando um mecanismo, supostamente só para usar em casos de emergência, rolavam a “todo o vapor”, entre estações, de portas abertas. Tinha que ser. Pelo menos nas ditas horas de ponta. Sempre levavam, nos degraus, sim, nessa altura tinham degraus, mais alguns passageiros, ali, na terra de ninguém, meio dependurados, entre a porta e os carris.
Eu era um desses, desses “empoleirados” passageiros, que na Damaia, de manhã, com destino ao Rossio (também não havia outro), tinha-mos o nosso “lugar o marcado”, não lá dentro, nos assentos, mas no “degrauzito” do costume. E mesmo assim, tinha que ser nos da Amadora, nos comboios que iniciavam aí, porque nos outros, nos que vinham de mais longe, era para esquecer, até esses “lugares” vinham lotados.
Ao final do dia, no regresso, no Rossio, apertados como a dita sardinha, vínhamos na mesma, no entanto, como os comboios saíam todos dali, com intervalos entre si, mais ou menos, curtos, dava para escolher o menos cheio e, portanto, por norma, as portas vinham fechadas.
Nesse dia, eu e X, um colega lá do trabalho, estávamos “ligeiramente” atrasados e, a culpa, com toda a certeza, tinha sido das duas meninas, empregadas numa pastelaria, lá para os lados do escritório, lá para o poço dos negros, que nos andavam aturar, davam-nos conversa, se calhar incentivadas pelo patrão, assim os grandes “papalvos”, no final do dia, ainda iam por ali consumir mais alguma coisinha. Ora, nesse dia, já muito atrasados, na estação, nem deu para escolher, vamos mesmo naquele que está quase a sair. Corre que corre, pois ele já apitou e, num pulo, estamos lá dentro. Foi mesmo a tempo. Nas nossas costas, as portas, fecharam-se. Subi os dois degraus e, muito a custo, aperta daqui, aperta dali, lá arranjei um espacinho para mim. O X, lá debaixo, dos degraus, ia “trocando umas impressões” comigo, mas não havia meio de fazer o mesmo que eu, de subir para ali, para o meio da “molhada”, até que eu lhe perguntei:
- Porque é que não sobes? Ainda há lugar para mais um!
- Não posso! Fiquei com uma das pernas entaladas na porta!
Respondeu ele baixinho.
Olhei para o tal “manípulo” do ar, tentei puxá-lo e, nada, nem se mexeu. Tentaram outros e, nada de nada. Por vezes Existiam uns assim. Não funcionavam. Era o caso daquele. Tinha saído a fava naquele dia ao X. Fez a viagem inteira no túnel assim, naquela posição, mais ou menos, “de pé-coxinho”. Naqueles tempos eram uns 5 minutos pela certa.
O que lhe valeu é que aquele comboio parava já na próxima estação, em Campolide e, para aquela “curta” viagem, entre o Rossio e Campolide, pelo menos, a coisa não foi assim aparentemente muito dolorosa, pois, as duas portas, não se tocavam por completo, provavelmente já a pensar nisto, terminavam, não em aço, mas sim, em borracha, deixavam ali, um intervalo, ume espacinho mais “aconchegado”, sem nenhuma dúvida, um espaço à medida para quem “gostava” de viajar no comboio de perna entalada nas portas!

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