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Há horas assim

Livro em construção

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Há horas assim

01
Jul21

Cuidado com o que dizes

correspondente

O casal veio passar férias a Portugal.

 

Ela filha de portuguesa e ele Belga.

 

Foram uns dias até ao Alentejo.

 

Terras da mãe dela.

 

Depois foram ao Norte.

 

E, nos últimos dias, ficaram por Lisboa.

 

Foram aqui, acolá, Sintra, Cascais, ou às praias da linha e, mesmo mesmo ao terminar as férias, estiveram connosco.

 

Comigo e com a minha, na altura, namorada.

 

Ela, a “Belga” de origens alentejanas, era amiga desta, da minha namorada.

 

Bom, estamos nisto, onde vamos, onde não vamos, afinal já tinham visto tudo, ou quase tudo.

 

Como estávamos ali por Lisboa, fomos até à Baixa.

 

O passeio estava a ser “morno”, quase, clima de fim de festa.

 

Eu, não sei porquê, talvez, para me exibir, para mostrar que sabia umas coisas, falei do terramoto, do Marquês de Pombal.

 

Afinal de contas, o curso de História, tirado há pouco tempo, ainda estava “fresquinho”.

 

Devia ter parado por ali.

 

Já tinha demonstrado, como era sábio,  como era culto.

 

Mas não.

 

Prossegui na asneira.

 

O Belga passou a prestar mais atenção.

 

Entusiasmado, no Terreiro do Paço, ao olhar para o castelo e, ao levantar um pouco do véu, da conquista deste aos mouros, perguntei:

 

- Vamos até lá?

 

E, fomos.

 

Devia ter olhado bem para os olhos do Belga.

 

Estava a “beber” sofregamente tudo o que eu dizia. Deviam estar a faiscar.

 

Chegados lá, ao Castelo, demos poucos passos e, eu, talvez já um pouco cansado, afinal aquilo é sempre a subir, apontei para ali, para acolá, ali fica aquilo, além era outrora isto e aquilo e, por mim, a visita estava terminada.

 

Mas não.

 

O Belga estava empolgado.

 

Durante todos estes dias, com toda a certeza, não tinha tido assim, à mão de semear, um cicerone, com conhecimentos tão interessantes, segundo ele, creio.

 

Digamos que, ao castelo, nunca o tinha percorrido tanto, como naquele dia, num sobe e desce constante, acho que fiquei a conhecer todas as pedrinhas dele e, em todos os cantos e recantos, o senhor Belga queria saber mais.

 

Espremeu que espremeu.

 

Que canseira.

 

Ainda bem que, no dia seguinte, eles partiam.

 

Nota de rodapé: Canseira à parte, claro, gostamos sempre que alguém, principalmente, estrangeiro, se interesse pela nossa História, no fundo, por nós.

02
Mai21

Uma questão de meiguice

correspondente

Há dias, ao ver uma luta, entre o Homem e a máquina, veio-me à memória, outra.

 

A de há poucos dias, foi entre um homem e a máquina do tabaco. Esta devolvia a nota sistematicamente e, do tão ansiado maço de tabaco é que nada. Talvez a máquina tivesse a pensar na saúde do homem. Finalmente, o vício, a persistência e, um pouco mais de suavidade, no apertar do botão, resolveram a coisa.

 

Na outra luta, na que me veio à memória, o desfecho, para desespero do outro protagonista, de um outro homem, foi mais favorável à outra máquina.

 

Eu e um amigo, há uns anos, lá íamos a caminho do nosso cafezinho habitual, quando, esse meu amigo, aponta para o outro lado da rua a perguntar:

 

- Aquele ali, aquele que parece estar a dar murros naquela máquina, não é o X?

 

Era o X sim senhora. Um conhecido nosso. E esta máquina, era para satisfazer outro tipo de vício, um vício bom, se lhe quisermos assim chamar, era uma de preservativos.

 

Contudo, não colaborou, de jeito nenhum.

 

Ficámos a observar aquilo até ao final. A observar é como quem diz, talvez a gozar, seja o termo mais acertado.

 

A luta foi aguerrida. Um tinha uma urgência daquelas e, a outra, a máquina, a desgraçada, impávida e serena, nem devolvia a moeda nem largava os preciosos e tão desejados preservativos. E levou de vencida o Homem.

 

Algo, de muito muito urgente, naquela altura, deve ter sido adiado e, tudo por causa de uma máquina não colaborativa.  

 

Ou não.

 

Se calhar, anda por aí, o fruto, do não adiamento.

 

Nota de rodapé: Este meu amigo, não o X, o companheiro de muitos cafés, hoje está a lutar pela vida, faz parte da estatísticas, dos números, dos que estão numa unidade de cuidados intensivos, consequência desta pandemia mas, como espectador de mais uma luta, aqui ficam os meus desejos de melhoras. Acredito que ainda vamos, por esta vida fora, assistir a muitas lutas, mas que sejam destas, lá atrás relatadas, lutas mais inofensivas, apesar de tudo.

18
Mar21

A herança

correspondente

Parte do que aqui é contado não deve ser exclusivo do protagonista desta história.

 

Era uma família pobre.

 

Ele era um dos muitos filhos do casal.

 

Não sei, se de entre eles, se era dos mais velhos ou dos mais novos.

 

Mas seria talvez dos mais velhos.

 

Com 14 ou 15 anos veio de Trás-os-Montes para o Porto trabalhar.

 

Não sei se foi muitas vezes à “terra”. Acho que não.

 

Veio, na “tropa”, para Mafra.

 

Em Lisboa conheceu a sua futura esposa e, pela capital (ou arredores), por cá, ficou.

 

Não sei se a sua família em Trás-os-Montes da cepa torta não passou ou se, com menos filhos por perto, prosperou. Mas é natural que sim. Ele e mais um ou outro dos que foram obrigados a abandonar o seio familiar, é provável, que ajudassem, enviando dinheiro.

 

Muito mais tarde, na morte do último progenitor, creio, o seu pai, recebeu a herança, a única herança que os seus irmãos, daqueles que ficaram lá na “terra”, lhe enviaram,  diligentemente e com um bilhete a o informar de que aquela tinha sido a vontade do pai (não me perguntem como o fizeram chegar às suas mãos).

 

Um sacho.

 

Um sacho para um alfaiate.

 

Esta era a profissão dele.

 

Um alfaiate a morar nos subúrbios de Lisboa. Num prédio. Num terceiro andar.

 

Mesmo assim, quando num certo dia, a esposa ou o filho, numa daquelas “arrumações” que fazemos habitualmente para nos livrarmos de coisas inúteis e para arranjar mais espaço, o deitaram fora, ao velho e ferrugento sacho, quase teve um ataque cardíaco.

 

Era a herança dos seus pais.

 

E até, quem sabe, um dia, o sachinho, ainda poderia vir a ser útil.

 

Enfim, herança diminuta, à parte, eu, escriturário de profissão e, que guardo religiosamente as ferramentas (de marceneiro, ou carpinteiro ou de estofador) do meu avô, mais peças de museu do que outra utilidade, afinal até o compreendo bem.

05
Nov19

Uma questão de cor(fobia)

correspondente

Abro aqui parêntesis desde já para explicar os termos usados ao longo deste texto para definir uns e outros e, assim deste modo, para tentar não ser incorrecto com nenhum deles. Outrora uns aludiam aos outros como, o branco e, os outros, como o preto. Ora como tanto a uns como a outros isto passou a soar como uma forma de insulto, estes termos, actualmente não são, como direi, enfim, politicamente correctos e, se calhar bem, não são usados. Contudo, eu, pessoalmente, também não concordo com o termo, de cor negra, ou de origem africana, para definir o outro, o de cor diferente da minha, portanto, se é uma questão de cor da pele, então, usarei o termo mais apropriado, o de cor de pele negra.

 

Há uns anos, quando na Amadora, a minoria não era a maioria (atenção isto não é para ser lido como uma crítica, ou como uma espécie de nostalgia, mas apenas como uma constatação), no prédio onde morava um meu amigo, na Damaia, um casal, cuja cor da pele era negra, alugou uma casa. Eram os únicos nessas condições no prédio, todos os outros moradores eram de cor de pele branca.

Um dia a campainha dessa fracção avariou. O administrador, um dos vizinhos, ele próprio, resolveu prontamente a questão. Era o botão, o cá de fora, na porta do prédio, que tinha avariado. Como era apenas esse, comprou outro, substituiu o dito e pronto.

 

Até aqui, nada de errado, tudo banal, uma história sem história. Assim seria se, o diligente administrador, por uma questão económica, pelo menos a meu ver, não tivesse falhado redondamente, pois, num prédio velhinho, encontrar peças iguais às existentes, claro, torna-se uma tarefa muito difícil de concretizar e, pelos vistos, visivelmente, a olho nu, ele deparou-se com esse problema. Não querendo gastar muito dinheiro de certeza e, não encontrando um botão da mesma cor dos outros todos, branquinhos como a neve, colocou o único que encontrou, embora de cor diferente, imaginem, um botão preto, um botão que se destacava no meio dos outros todos!

02
Out19

Nem 8 nem 80

correspondente

Há dias encomendei online, um brinquedo, uma boneca de pano, ou de trapos, não para oferecer a uma criança, mas para uma senhora de idade avançada, a minha mãe e, quanto à entrega fiquei um pouco desiludido, não que tenha algo corrido mal, mas talvez por estar habituado, neste tipo de entregas, a horários mais curtos, mais específicos e não apenas a informação de que seria entregue no dia X e mais nada, o que realmente aconteceu, aí pelas 19 horas, logo, por acaso tinha disponibilidade, mas resultou em um dia inteiro à espera de uma boneca!

Então este episódio fez-me lembrar outro, outra entrega, com outra empresa desta área, de entregas ou distribuição, que em contrapartida, de modo eficiente e antecipado, aí com dois a três dias do dia previsto para a entrega, passe o exagero, me foi enviando, via e-mail, SMS, sinais de fumo etc., avisos e informação, cada vez mais pormenorizada, quase milimétrica quanto ao dia, à hora, ao minuto e ao segundo, acerca da previsão do momento dessa entrega. A coisa foi de tal forma que na hora, no minuto, no segundo, previstos, eu estava “ansiosíssimo” por essa entrega. Mas passou-se esse segundo, esse minuto, meia hora, da hora prevista e nada. Estranho. De repente, ou no e-mail, ou via SMS, cai a seguinte mensagem: “Passámos na morada indicada mas não se encontrava em casa para receber a encomenda e …”.

Não sei se o balão, o que foi enchendo, enchendo, com a multiplicação de tantos avisos, o balão de pura ansiedade para que a entrega se concretizasse rapidamente e pronto, se esvaziou num ápice, ou se explodiu de vez com aquela cretinice, alegarem que não estava em casa, quando há muito que eu já tinha quase estendida uma passadeira vermelha para tal ocasião, mas depois de tudo esclarecido, azar dos azares, de facto, a campainha da porta da rua, que provavelmente, até perto da hora, do minuto, do segundo, previstos para a entrega, estava a funcionar, mas por capricho, nesse preciso momento, resolveu não funcionar, não tocou, depois disso, aí passada uma meia hora, só para chatear, voltou a funcionar sem qualquer necessidade de algum tipo de reparação. Há horas, minutos, segundos, assim!

01
Out19

É bom sabermos que não somos os únicos

correspondente

Ficamos melhor quando descobrimos que não somos os únicos com algumas excentricidades, vulgo maluquices, como aquela minha, a de provar sempre um pouco da casca da laranja, tangerina ou afins, quando me preparo para comer algum desses citrinos. Ou aquela de miúdo, de esperar pacientemente, na cozinha, quando sabia que o acompanhamento da refeição ia ser batatas fritas, lá aguardava que aguardava que a minha mãe descascasse as mesmas, que as cortasse em palitos ou às rodelas e, depois lhes deitasse um pouco de sal por cima, para, enquanto iam e não iam para a fritadeira, eu (e a cúmplice da minha irmã) as íamos comendo mesmo assim, cruas e salgadas, creio até, que apesar de nos reprender, a nossa mãe já descascava umas tantas a mais a contar com isso!

Ontem, passou aqui por minha casa um amigo de longa data, tínhamos combinado sair, ir beber um café, pôr a conversa em dia, coscuvilhar, cortar na casaca, enfim, o passatempo preferido da maior parte de todos nós, embora não o admitamos, assim abertamente, contudo, também é certo e sabido de que muitos preferem mais aquela do tipo à janela bem ocultos pelas cortinas a coscuvilhar tudo o que se passa lá fora.

Bom, mas voltando ao ponto inicial, o que eu queria registar aqui, muito simplesmente, é que com essa visita constatei que, afinal não, não sou o único maluco, há mais e, se calhar muitos mais, cada um com a sua “mania”, ou mesmo mais que uma.

Então, como estava a aguardar uma entrega agendada para aquela altura, eu e o meu amigo não fomos à rua, desculpei-me e ofereci um café caseiro, o meu amigo aceitou, fui tirar o café e perguntei:

- Não queres açúcar pois não?

Já sabia que bebe o café sem açúcar.

- Não, obrigado, mas quero a colher na mesma.

E, assim, lá lhe servi a chávena de café, no respectivo pires e com a colher “exigida” e, lá observei o senhor a mexer o café com a colher, a mexer, a mexer, a misturar, no café, coisa nenhuma!

24
Fev19

Os senhores Polícias, os papões, do antigamente

correspondente

Há dias, aqui na Amadora, num supermercado, não estava um polícia, nem dois, estavam três, junto da porta, lá dentro.

 

A minha irmã, que deixou de morar nesta zona há muito, mora na “província”, apenas a cerca de 30 km daqui, na zona saloia, estranha isto, ver polícias a “guardar” os supermercados. Sinais dos tempos.

 

Mas pelos vistos, um, dois ou três, são poucos.

 

Estava eu na caixa, atrás de uma mãe acompanhada pela filha, uma miúda, tagarela como só visto, aí com uns 4 a 5 anos, quando, ela, veio provar isso mesmo, um, dois ou três, polícias, embora todos do género, daqueles guardas do palácio da rainha de Inglaterra, tipo, cara de pau, são poucos, são poucos para impor respeitinho.

 

Não é que a pirralha, ao passar por eles, ao sair com a mãe, se virou para esse “aglomerado” de senhores agentes, quase uma esquadra inteira, para os três representantes da autoridade e, em jeito de despedida, se saiu com esta:

 

- Então Adeus senhores polícias! Portem-se mal!

 

Não reparei, mas a mãe, provavelmente apressou o passo dela e do diabinho e, deve ter mudado de cor, assim para o pimentão.

 

Sim senhor, não há dúvida nenhuma, uma farda, é uma farda, nada como uma farda, para impor respeito, quanto mais três. 

16
Jan19

Tantas vezes o cântaro vai à fonte que um dia …

correspondente

Um certo dia, entrei numa loja, a acompanhar ali uma amiga. Ela ia e vai lá frequentemente. Olhei para o senhor que a atendeu e, pelos modos, pela fisionomia, dei-lhe o nome de Sr. Raposo.

 

A partir daí, sempre que ela dizia que ia a essa loja, eu lá trocava o nome do homem, na conversa entre nós, lá o tratava por Sr. Raposo.

 

E há pouco tempo, a amiga, entrou pela loja adentro a cumprimentar o senhor: Bom dia Sr. Raposo!

 

Pediu muitas desculpas pela confusão, amaldiçoo-me secretamente por a induzir naquele erro e, lá inventou que estava a confundi-lo com outra pessoa!

 

12
Out17

Uma pergunta inoportuna

correspondente

Parece que foi ontem, mas não foi, já passou mais de um ano, quando entrei naquele quarto, naquela unidade de saúde, para uma “estadia” prevista para um mês e, felizmente assim foi, recuperei dentro do previsto, o que era previsto recuperar (passe a redundância), no que se refere ao problema de saúde que ali me tinha levado. Era um quarto “catita” com três camas. Apenas a do meio estava ocupada. Ocupei uma outra e, quando a “comissão de recepção”, após me explicar mais ou menos a “logística” daquele espaço, passados uns minutos, nos deixou a sós, apresentei-me ao meu “colega” de quarto e, por alguns momentos ficámos calados os dois. Para quebrar o silêncio, perguntei, por perguntar:

- E então, está aqui, no quarto, sozinho há muito tempo, não tem tido “colegas”?

- Tive.

Respondeu ele laconicamente.

Eu deveria ter ficado por aí, mas não, perguntei:

- E então, o que aconteceu, a eles entretanto?

- Já foram.

Respondeu, de novo, laconicamente.

Insisti:

- Já foram, então, foram embora, melhoraram?

- Morreram.

Perante esta curta resposta dele, bom, escusado será dizer, nessa noite, dormi, mas tive pesadelos, pesadelos onde entrava aquele meu vizinho de cama, aquele, versão “viúva negra”, de quarto de unidade de cuidados continuados.

Como alguém dizia, para morrer, basta estar vivo e, aquilo era uma unidade de saúde, mas aquela ala era suposto ser a da convalescença.

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