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Há horas assim

Livro em construção

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Há horas assim

07
Jan15

O Marialva

correspondente

Há muitos, muitos anos, quando comecei a trabalhar (sem ser apenas nas férias grandes), comecei numa firma que pela sua “pujança”, nos escritórios, necessitou, não de um estafeta, mas de dois e, daí a minha contratação. Um estafeta já tinham, faltava outro. Eu, até essa altura, era um menino da mamã, um puto que mal saía debaixo das saias da mãe. O outro, o estafeta já “residente”, apesar de termos mais ou menos a mesma idade, andávamos pelos 16 anos, era bem diferente, era um “Pintas”. Morava ali na zona dos escritórios, perto do Cais do Sodré e, já tinha a “escola toda”. Nós tínhamos um velhote que nos “comandava”, também ele bem “sabido”, aliás, ele e o marialva estafeta, eram dali, eram uns “castiços” representantes da “espécie” morador de bairro de Lisboa, quase vizinhos, mas mesmo assim, o mais novo, uma vez por outra, lá conseguia trocar as voltas às ordens do velhote JV. Veja-se, a título de exemplo, a tarefa das rendas, todos os meses, até ao dia 8, havia umas tantas rendas para pagar e, o que é que fazia o senhor “Pintas”? Nos dois primeiros dias, aí sim, trabalhava que nem um mouro, pagava aquilo tudo, as rendas todas, ia de lés-a-lés por Lisboa inteira mais arredores e, depois nos restantes dias, até ao oitavo dia do mês, saía calmamente, porta fora, atirando a frase da praxe ao nosso chefe:
- Vou pagar as rendas que ainda não paguei!
Que lata!
Contudo, nem tudo eram rosas, o marialva tinha um segredo. Um segredo que escondia muito bem. Um segredo que manchava a sua reputação de “Pintas” enão só. Um segredo que a coscuvilhice de uma coleguinha me revelou. O grande Marialva, todos os meses, no envelope do seu ordenado, levava para casa, umas notas a menos, umas notas descontadas à cabeça, umas notas tiradas pela secção de pessoal para abater a uma dívida que tinha na firma. Uma dívida, “contraída”, exactamente, numa altura em que andava entretido a pagar umas rendas e, que segundo constou, uma prostituta, bem mais sabida, com a sua lábia toda (acrescida dos seus opulentos atributos) o desviou do bom caminho e lhe ficou com o dinheiro, com as notinhas todas destinadas a essas rendas, ainda por cima, por apenas uma rapidinha “entrevista”. Uma tão rápida entrevista, que diziam as más-línguas, que na verdade, o “Pintas” não teve direito a nada de nada, que tinha pago e bem pago, mas que ficou a ver navios!
A firma “emagreceu”, o Marialva deixou-nos e, eu tentei seguir as pisadas desse castiço estafeta, no que respeita ao exemplo das rendas, não no caso da prostituta, claro está!

30
Dez14

Na “fita” errada

correspondente

Quem não se lembra de ver, nos filmes, volta e meia, uma mala, daquelas de executivo, cheia de maços de notas? Normalmente, maços de dólares norte-americanos, não fossem, a maioria dos filmes, provenientes também desse ponto do globo. A mala que entra nesta história, no seu interior, durante alguns anos, também transportou muitos e muitos maços de notas, não de dólares, mas de escudos. Passo a explicar o insólito meio de transporte, insólito ou talvez não, dado o exemplo corriqueiro das suas “gémeas” das ditas fitas.
Tive um colega que, numa comparação, no mínimo, grosseira, dizia que eu era como certos médicos, com determinada especialidade, médicos que trabalhavam com o que os outros se “divertiam”. Médicos à parte e “divertimentos” também à parte, eu era tesoureiro, trabalhava com dinheiro e, em tempos idos, numa firma já desaparecida, nos Armazéns Conde Barão, maços de notas de escudos emala, pelo menos, uma vez por dia, acompanhavam-me. Ou só nas idas ao banco, ou nas idas e vindas. Aquilo era feito de forma tão natural e sem nenhuma “manobra de diversão”, que provavelmente, por isso mesmo, nunca tive nenhum “problema”. Nunca tive nenhum tipo de “problema”, até aquele dia.
Um dia, numa tarde, vinha eu e a minha malinha (por acaso vazia), de um banco, já a meio da rua Fresca, rua onde eram os escritórios da firma, a pensar em ir beber um cafezinho na tasca do Silva, quando, do nada, passa por mim um tipo a correr, uns metros à minha frente detém-se e, oiço uma ordem atrás de mim:
- Quieto ou disparamos!
Sem pinga de sangue, aquela rua Fresca, de repente, fez jus ao nome e ficou gelada, pelo menos eu fiquei. Lentamente virei-me e, no meio da rua, estavam dois senhores de arma em punho. A minha vontade foi largar a malita e desatar a correr dali para fora. Mas, entretanto, um deles, com a mão, fazia-me sinal, não para lhe dar a mala, mas para me desviar da mira da sua pistolinha. De repente fez-se luz na minha cabeça desnorteada. Aquilo não era comigo. Era um “figurante” no filme errado. Eu só estava a atrapalhar. Estava entre um fugitivo e os seus perseguidores. De muito “mansinho” saí de cena. Os perseguidores (polícias) algemaram o fugitivo e meteram-no no carro que estava parado, de portas escancaradas, lá atrás, no início da rua, a atrapalhar o trânsito da rua do Poço dos Negros. Não me lembro bem, mas com toda a certeza, o cafezinho que eu vinha a pensar tomar passou a uma bebida bem mais forte!
E na realidade, aquela mala, cheia ou vazia, como se vê, nunca me causou qualquer transtorno!

08
Dez14

Escrevinhar, escrevinhar muito, escrevinhar quase até à exaustão!

correspondente

Há mais ou menos trinta anos, andava pelo Largo do Camões, pela Calçada do Combro e pelo Largo Conde Barão, um homem, que pelo aspecto (e pelo olfacto), se percebia não gostar muito de água. Era corpulento, o seu cabelo e a sua barba já não eram cortados há muito, muito tempo. Este aparentava ter uns cinquenta a sessenta anos, vestia um fato (ou os restos do que em tempos devia ter sido essa peça de vestuário) e, acima de tudo, era visível que a sua cabeça já não devia funcionar lá muito bem.
Mas, aquilo que me levou a recordar essa personagem, foi o facto de o sujeito passar a vida a escrevinhar numas folhas meio amarrotadas, que andavam sempre com ele. E Eu interrogava os meus botões: Que raio de coisas este andará a escrever para ali? Serão só uns rabiscos, ou umas coisas sem sentido nenhum ou até estará, naquelas folhas sujas e amachucadas, alguma coisa de jeito?
Lembrei-me deste episódio, quando há uns tempos, me senti a fazer o mesmo papel do suposto escritor anónimo, ou mais propriamente, de parvo.
Depois de ter sido recebido no meu novo e promissor “emprego”, após as apresentações da praxe e, finalmente, depois de me deixarem na sala onde iria trabalhar, mas sem grandes explicações, sem serem lá muito claros acerca do que pretendiam de mim, acerca do que eu iria fazer ali (quase que ia ficando para ali esquecido durante uma semana). Então, perante os olhares curiosos dos colegas, que não me viam a fazer nada e já desesperado e embaraçado com a situação, puxei de umas folhas e de uma caneta e toca a escrevinhar. Não sei bem o que escrevi, mas que foi abundante a prosa, lá isso foi!

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura Realidade!

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