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Há horas assim

Livro em construção

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Há horas assim

15
Out17

Nem sequer um “tirinho” ao alvo

correspondente

Descrevo aqui o episódio que se segue porque, de certo modo “cumpre” os critérios deste blogue, por ser caricato e por se aplicar a ele (e bem) o título do blogue, há horas assim, porém, apesar de hoje em dia ter percebido que a maior parte daquilo que nos acontece não estar nas nossas mãos e, acontecer, precisamente, num minuto, num segundo, num ápice, muitas das vezes por um mero acaso, nessa altura, não tinha percebido isso assim de forma tão evidente, enfim, coisas que a chamada “experiência de vida”, nome pomposo dado ao envelhecimento, nos traz e, embora também este episódio, não ter um final feliz, antes pelo contrário, ter modificado de forma negativa o rumo da minha vida, optei, mesmo assim, aqui “escrevinhar” umas linhas a contar o sucedido na altura.

Cumpre acrescentar, para que não fique por cá, no blogue, no post, uma nuvem muito negra que, na vida, felizmente, existem episódios destes, episódios negativos, outros positivos e, o importante é viver, se possível, com um saldo positivo, se o saldo não for assim tão positivo, pelo menos valorizemos os episódios menos maus.

Finda que está a veia filosófica, de imediato, passemos aos factos.

Estou, “nuzinho da silva”, assim como vim ao mundo, frente ao senhor doutor, no dia em que entrei no quartel, na minha fugaz ida à tropa e, este, medindo-me de alto a baixo, diz:

- Você é magrito, mas não posso mandar ninguém embora por ser um trinca-espinhas, não tem mais nada a apontar contra si?

Não tenho mais nada? Como se ser magro fosse um problema, uma doença! Enfim, engoli o orgulho ferido e respondi:

- Não.

- E usa óculos porquê?

Tentou ele de novo arranjar qualquer coisa para correr com aquele pau-de-virar-tripa.

- Miopia.

Respondeu este mal-humorado candidato a ser rejeitado no exército. Não é que fizesse muita questão em cumprir o serviço militar obrigatório, mas já que tinha sido dado como apto na inspecção, dois anos antes e, já que ali estava, no quartel, aquilo, verdade seja dita, estava a mexer com a minha autoestima.

- E qual é a graduação das lentes?

Insistiu ele, naquela obstinação, na obstinação em correr comigo.

- Não sei.

Rosnei eu. Sabia que tinha miopia. Mas sabia lá a graduação. E mesmo que soubesse, agora é que não lhe dizia, isso era certo.

- Bom, vou pedir uma consulta para si, no hospital militar, de oftalmologia, mas duvido que o mandem embora por causa disto.

Isto é que ele era teimoso.

Passaram-se cerca de duas a três semanas, de vida, mais ou menos regular, de recruta, no quartel, com os intervalos de idas a casa ao fim-de-semana e, finalmente, lá fui, num certo dia, eu e outros, de manhazinha, na camioneta da tropa, a Lisboa, ao hospital, no meu caso, para aquela consulta, aquela que o obstinado doutor tinha marcado, a de oftalmologia. Na consulta, depois das perguntas da praxe e, perante alguém de pé atrás, de alguém que olhava para mim, a pensar, tipo, cá está outro a tentar “fugir” á tropa, ainda por cima, por ter miopia, apanho cada um, no meio destas, quase certas divagações com os seus botões, apontou para o quadro das letrinhas e perguntou-me:

- Então, quais são as letras, aquelas da linha de cima?

- Não sei, não consigo, assim, ler nada!

Respondi, atrapalhado, eu próprio, desconcertado.

- Está a brincar comigo, não está? Aquelas letras são as maiores!

Respondeu ele, já com a certeza, claro, de que se confirmava, de que estava perante um a querer escapar ao serviço militar.

- Não consigo ver as letras, não pode apagar a luz do quadro, esta, assim ligada está a ofuscar-me.

Era verdade, em todas as consultas de oftalmologia que até então tinha ido, não existia aquele tipo de quadro, eram apenas uns simples papeis, com as letrinhas, afixados na parede em frente.

O médico, meio desconfiado, então, apagou a luz do quadro e, voltou a perguntar, quais eram as letras da primeira linha. Respondi acertadamente às da primeira e a mais umas tantas, das linhas abaixo. Até ele me interromper. Olhou para mim, agora com “cara de caso”, mais sério, pediu-me para mudar de cadeira, para ir para uma outra, uma onde tinha outro equipamento, espreitou cá para dentro e, fez-se luz para ele, descobriu qualquer coisa. Para ter a certeza, puseram-me umas gotinhas, pediu-me para aguardar, de olhos fechados, na sala de espera. O tempo passou. O motorista do quartel descobriu-me ali, disse que era para regressarmos, o médico, viu-o, disse-lhe que eu ia ficar, só ia ao final do dia, parece que vinham de manhã, regressavam de manhã e, de tarde repetia-se a rotina. Fiquei então. Uma meia hora depois, das gotinhas terem feito efeito, voltei ao consultório, nova espreitadela e, confirmava-se, tinha uma doença grave nos olhos, tão grave que, ironia das ironias, iria ficar a aguardar junta médica, uns dias, uma junta médica que me ia livrar do serviço militar obrigatório. O médico do quartel, sem querer, tinha adivinhado.

Nesse dia a única coisa boa foi o almoço. Não era suposto o recruta ficar por ali, para almoçar, mas como ficou, portanto, deram-lhe uma senha e, pela hora do almoço, lá estava um recruta, no meio de generais ou afins, numa messe de oficiais, ou coisa parecida, a ser servido por criado de mesa, perante uma comidinha bem caprichada, muito diferente da do quartel e, não havia dúvida, a usufruir de tudo que não tinha direito. Magra compensação.

Este recruta, na tropa, umas três ou quatro semanas, carregou uma G3, para trás e para a frente, desmontou-a, montou-a, limpou-a muito bem e, no dia de irem para a carreira de tiro, nem um tirinho deu, foi embora. Espertos eles. Devem ter acertado o calendário da junta com o tiro do pitosga ao alvo. Acho que não, que foi pura coincidência, mas que foi uma coincidência feliz, lá isso foi.

Afinal, não se perdia nada, com a sua saída, ele só estava a denegrir a imagem de virilidade do exército, pois já anteriormente, numa instrução nocturna, este vosso pitosga, por não conseguir ver nada, de noite, no meio do campo, sem luzes nenhumas (outra descoberta feita só nessa altura), depois de alguns tropeções, de algumas rasteiras involuntárias passadas a colegas, fez o resto da instrução e regressou ao quartel de mãozinha dada ao furriel. Que vergonha!

31
Jan15

Feijão muito verdinho

correspondente

Era Inverno, estávamos em fins de Janeiro e, o dia estava de acordo com a estação do ano, chovia, fazia vento e estava frio. Eu mais um compincha, de manhã, muito cedo, tínhamos apanhado a camioneta, não já do Eduardo Jorge, mas ainda, a da Rodoviária Nacional, a camioneta que nos tinham dito que ficava perto do nosso destino. Não foi bem assim. Ficou longe. De trouxa às costas, que é como quem diz, de saco às costas, lá fomos nós, por aquela estrada fora, por aquela estrada “interminável”, aqui e ali, já com outros grupos, também de saco às costas, a caminharem pela berma dela, todos a confluírem, era mais que certo, para o mesmo destino. O quartel da Carregueira. Ia para a tropa.
Chegámos. Entrámos. E foi um dia longo, um dia que demorou, demorou e demorou a chegar ao fim.
Teve diversas “actividades”, actividades a que não estávamos habituados, pelo menos eu, um jovem escriturário, que pelos vistos, estava muito mal habituado, mal preparado para o que estava à minha espera, desde a “formatura” na parada, ainda vestidos à civil, de guarda-chuva fechado, portanto, ali à chuva e ao vento, a aguardar a chamada ou lá o que era, para irmos almoçar, até aquela “vacinação” em série, de seringa em punho com uma agulha enorme, espetada nas costas, quase a trespassarmos, ou isso já foi mais tarde, já foi noutro dia? Não sei não me lembro, mas da agulha lembro-me bem!
E no meio dessas “animações” iniciais, que nos estavam reservadas para esse dia, tivemos a inspecção. Durante todo aquele dia, ora num edifício, ora noutro, lá estávamos nós, em filinha indiana, a aguardar, para isto e para aquilo e, numa dessas filas, ficámos a saber, que ali, o que nos aguardava era uma inspecção. Uma inspecção que consistia em “desfilar”, numa sala, onde estavam sentados lado-a-lado, a uma mesa comprida, uns senhores (creio que eram médicos), perante os quais, desfilávamos “como Deus nos trouxe ao mundo”, também numa filinha ordeira. Que vexame!
A coisa teria corrido bem, mas para variar, parece que fiz asneira da grossa. Estava já a meio da “passagem de modelos”, quando, lá fora, se ouve um baque, seguido de uns risinhos, logo abafados por umas grandes “asneiradas” ditas por alguém. Esse alguém, um Furriel, entrou na sala e, vermelho de raiva, perguntou:
- De quem aquele saco que está ali no meio do caminho?
Era o meu e, ele tinha acabado de tropeçar nele, dera um grande trambolhão!
Escusado será dizer, que apesar desse Furriel, depois, não me ter “calhado na rifa”, não era o do meu pelotão, apesar disso, sempre que nos cruzávamos, claro, quem saía na rifa era eu!

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